A arte de lapidar um texto

Geralmente, quando me coloco aposto para escrever um texto na maioria das vezes eles já estão prontos, só que na minha mente. Dificilmente consigo sentar na frente do computador até que a luz venha. Isso não funciona comigo. Primeiro porque o texto não fica do jeito que eu quero (e sendo sincero: fica horrível.). E segundo porque eu mando na palavra e não o contrário como acontecem com muitos escritores. Não tenho talento pra tanto. Já compreendi.

Outro dia ouvi uma frase que dizia que o bom escritor não é aquele que têm as inimagináveis ideias, mas é aquele cujo sabe fazer faxina até que o texto fique como uma pérola. Muito interessante, quando aplicamos a arte de lapidar, ficamos mais leves. Sereno. Liberto também, por que não?

Um texto bem lapidado exige muita dedicação. Um empenho doloroso, pois quem escreve, sabe que apegamos em algumas frases ou até mesmo em alguns verbos que norteiam o nosso raciocínio, mas que no fundo, essas frases que nos compõe, esses verbos que identificamos como a chave de um texto, podem levar o leitor para outra compreensão ou para um entendimento pouco usual, dificultando assim o ritmo da leitura.

É preciso também desapegar das palavras que comprometem o resultado final. É preciso manter-se aberto para todas as interpretações possíveis, medular, reduzir, exprimir ou fazer uma faxina geral — não se dar por satisfeito. É preciso ser minucioso para retirar todos os rococós desnecessários.

Um texto bem lapidado ele fica cristalino. Um diamante. Não fica original porque sabemos que ninguém é, mas ele pode ficar único. Um texto bem polido não exige cabeçalho muito menos nota de rodapé, não exige legenda, tampouco resposta de última página, não exige análise interpretativa, sequer leitura dinâmica. Um texto refinado é um conjunto de ideias que aos poucos foram dando vida ao que é singular.

A arte de lapidar é também a arte de desapegar das coisas que só nos transformam em inutilidade. Pode ser desde uma peça em que está no armário ou até os antigos ressentimentos, incluindo também mágoas, machucados, feridas que indagamos que não cessam. Tudo pode vir ser aprimorado até que se transforme num cristal. Todos nós precisamos encontrar a forma de se recortar para continuar vivendo. Apagar algumas lembranças, algumas saudades, até esquecer o passado é uma das formas de aniquilar todo o sofrimento.

Entretanto, a maioria das coisas que limitam um texto, e até mesmo a nossa vida, é o narcisismo. Nada fica bom com acumulo de daquilo que se é. Acumular dramas, exibições, rancores, exigindo que o contexto faça sentido com a frase final, por exemplo. O que importa realmente é o final? Eu achava que era o meio. Mas como não sou narcisista, tire você suas próprias conclusões. Outra coisa muito importante: um texto também precisa dormir, e quando ele acorda, acorda com ele imensas ideias que substituem tudo aquilo que foi escrito.

Acordei. Percebi que ele precisava ser mais lapidado. Não ficou um diamante, mas me contenta essa reflexão.

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