A cultura do medo

Participei, outro dia, de um bate-papo com a doutora em Comunicação Ivana Bentes e o jornalista Leonardo Sakamoto, no Sesc, em São Paulo. O assunto da conversa era pós-verdade e fake news, algo emblemático, complexo, que tem tomado proporção no mundo todo. A certa altura da palestra, Leonardo enfatiza algo muito interessante: “Se o debate público fosse mais qualificado as pessoas se sentiriam motivadas a se informar melhor.”

Pois é, o que Sakamoto disse vai de encontro ao que ocorreu aqui em Jundiaí, na última sexta-feira (15), quando o juiz Luiz Antonio de Campos Júnior censurou a exibição da peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, que estava em cartaz na unidade do Sesc jundiaiense.

A peça traz Jesus Cristo, nos dias atuais, encarnado na pele de uma mulher transexual, criada pela dramaturga escocesa Jo Clifford.  Na página do Facebook, Natalia Mallo, tradutora e diretora do espetáculo, disse: “O espetáculo, escrito por Jo Clifford, busca resgatar a essência do que seria a mensagem de Jesus: afirmação da vida, tolerância, perdão, amor ao próximo. Para tanto, Jesus encarna em uma travesti, na identidade mais estigmatizada e marginalizada da nossa sociedade. A mensagem é de amor”.

O ocorrido me fez pensar também sobre o texto que li outro dia “Do que se tem medo”, da escritora gaúcha, Martha Medeiros, que publicou na sua página no Facebook. No texto Martha fala sobre a polêmica envolvendo o Santander: “Censurar é manter uma ideologia trancafiada. (…) Do que se tem tanto medo a ponto de querer proibir? Medo, talvez, de que nossos argumentos não sejam suficientemente eficazes para banir outras posturas e opiniões. Medo que exista a tal vida eterna e que tenhamos que conviver para sempre com tamanha variação de propostas, com a quantidade infinita de pontos de vista – tudo isso aterroriza porque comprova que somos apenas um em meio a bilhões. Diante dessa amplitude de possibilidades, como continuar acreditando que os outros deveriam pensar e viver que nem nós?”.

Medo é a palavra cabível. Medo da diversidade pulsante, medo da constante transformação das ideologias, medo daquilo que já se transformou e, portanto, a tentativa descabida ao retrocesso. Mas vale frisar: medo eu tenho de juízes como este que, partindo de suas crenças pessoais, acredita no que é melhor para todos.

Medo eu tenho é de morar numa cidade cuja essência tradicionalista não abre portas para conhecer a diversidade. Medo eu tenho da desinformação, da cultura do ódio, do achismo, das ideologias que não se renovam. Medo eu tenho da censura. Medo eu tenho quando as pessoas não se informam, quando alguém opina sobre o que não conhece, sobre o que não assistiu. Medo eu tenho quando a arte e qualquer forma de expressão são censuradas.

O medo mesmo aflora quando uma cidade se cala porque o consenso pede.

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