A decadência do jornalismo

Leio os jornais todas as manhãs, e antes mesmo de começar a ler respiro fundo, mas logo em seguida abro a primeira página e encaro as notícias do dia: “Garoto de quatro anos de idade atira na própria mãe”. Vou para a segunda página torcendo para que a notícia dê um quê de esperança: “Taxa de desemprego chega a 10,4 milhões, diz IBGE”. Vou para a página seguinte: “Comissão do impeachment têm 5 senadores envolvidos na lava jato”.

Levanto, vou tomar um café para recuperar o fôlego, e então, segundos após sair da minha mesa no trabalho, ouço alguém comentar mais uma notícia espantosa. “Você ficou sabendo da mulher que matou a sua própria companheira aqui na cidade?” Ligo a TV e me deparo com a votação de impeachment na Câmara. Basta!

Ligar a TV dá a sensação de estarmos em algum seriado americano em que ninguém sobrevive. Dá vontade de pegar as malas e sair correndo: tchau Brasil até nunca mais. Assistir àquilo só confirmou como é o ensino fundamental na Câmara dos Deputados. Como se não bastasse, olhar aquela palhaçada me deu uma crível sensação de como todos – todos! – são despreparados para exercer qualquer função, enfim, olhar aquilo só confirmou a batalha do oportunismo disfarçado de apologia.

Fora essa coisa horrorosa que ficou exposta para o mundo todo, eu chego à conclusão de que a notícia virou propaganda, e daquelas propagandas sem contexto algum, pois o jornalismo está à beira do precipício, tornou-se niilista preocupando-se apenas com a visibilidade do assunto e, direcionado, sobretudo, a sociedade para o caminho que ela quer, o que me entristece, já que nós nos informamos apenas com notícias do Jornal Nacional.

“A estética da pobreza é jornal”, disse certa vez Antônio Abujamra. O jovem não tem interesse em ler, o senhor aposentado lê, mas não entende muito de economia, de política, e está no seu direito, já que, morando num país como o nosso, é um analfabeto funcional. Sem leitor, o que um jornal faz? Parte para aquilo que dá visibilidade porque sabe que a maioria da população não tem raciocínio crítico, e por não ter raciocínio crítico, age no calor da emoção.

Certa vez li um artigo que dizia: “Se grandes jornais permitem que corporações influenciem seu conteúdo por medo de perder renda de propaganda, a própria democracia está em perigo”. Hummm… envolve dinheiro…

O jornalismo perdeu o timing. Focou-se tanto na tragédia que perdeu o senso crítico, deixou de pensar e virou essa coisa mequetrefe barata, sectário e simplista.

Antes de criticar esse cenário hostil, crítico a mídia por colaborar com essa barbárie que estamos vivendo hoje. Por escancarar e enaltecer a tragédia em vez de propor soluções. Questionar é o papel do jornalista, mas não há mais crítica tampouco questionamento, existe, sim, uma briga por interesses.

Solução? Talvez exista, mas ela só virá quando deixarmos a pobreza de espírito – que reina ambos os lados – e refletir acerca desse país que, definitivamente, escancarou a ganância escondida a sete chaves.

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