A gente deve abrir o coração?

Uma amiga perguntou outro dia se a gente deve abrir o coração para quem a gente ama. Olhei para ela e disse: depende. Depende muito do que você está sentindo. Se o que você está sentindo parece corroer a alma, abrir o coração é, sim, a melhor saída. Ela olhou no fundo dos meus olhos e questionou: “Tá, e como se faz isso?”. Franzi o cenho e não fugi da conversa: sei lá, existem formas e formas de abrir o coração,isso vária de pessoa pra pessoa. Ela, quase chorando, me pediu um abraço. Depois do caloroso afago, sussurrei em seu ouvido: desejar a um amigo que se apaixone é uma tirania das piores. Indagou em seguida: “Pior que ninguém me desejou, apenas aconteceu”. Dei outro abraço na tentativa de consolar, enquanto pensava comigo: filha, você está encrencada.

Quando ouço algo semelhante logo entendo que a pessoa está entrando em desespero. Alguns levam o ato na esportiva. “Cara, estou a fim de você, quer sair comigo?” E diante de um “sim” ou de um “não” a pessoa parte pra outra. Tudo numa boa. Porém, há pessoas e pessoas. Há quem não consiga dizer uma palavrinha diante do afortunado. Eu, como minha amiga, faço parte da segunda opção. Minhas pernas tremem, o cérebro não processa direito, meu coração acelera, falo uma besteira atrás da outra. Dizem que amar é isso: perder-se de si mesmo.

Mas não gosto dessa ideia de “perder-se de si mesmo”. Gosto de estar no controle da situação.

Lembro quando comecei a gostar de uma pessoa (não vou expô-lo, como se vê, não é do meu perfil), a gente se cruzava algumas vezes na faculdade e tantas outras vezes voltando. Por coincidência, descia no mesmo ponto que eu e morava próximo também. No entanto, não me chamou a atenção pela aparência, mas por algo a mais, foi um flechaço do cupido, aquela coisa que acontece sem mais nem menos em que o nosso coração vai para o céu e inferno simultaneamente.

Mas um dia, voltando da faculdade, sentado no último banco do ônibus, vi que estava sozinho à frente de mim, e durante todo o trajeto fiquei pensando em dizer algo, chamar para assistir a um filme, tomar alguma coisa, enfim, escrevi um roteiro, mas sabia que ao descer não teria coragem de falar nada. Dito e feito. Fico me perguntando o porquê a gente se limita, impedindo por medo, que coisas incríveis nos aconteçam. Pela primeira vez fiz algo: mandei uma solicitação no Facebook e depois mandei um texto dizendo o que estava sentindo.

Por mais que achasse que tudo que escrevi fosse coisa de adolescente, nada mais me importava. Eu estava preocupado com minha essência, ser verdadeiro comigo, com o que eu estava sentindo. Quando mandei a mensagem já não estava mais pensando se estava criando expectativa, se havia uma sintonia entre a gente, se poderia dar certo, se seria correspondido. Eu precisava ser fiel a mim mesmo. E fui. 

Moral da história: me aceitou no Facebook, quase tive um ataque cardíaco porque estava na faculdade, e ele, a poucos metros de mim talvez estivesse lendo o que escrevi, ao ir embora, lá estava ele de novo. Um olhou para o outro, um riu para o outro, ninguém disse nada. E nessa minha cabeça caótica achava que o mundo iria cair se dissesse o que sentia. Mas na real: não acontece nada.

Não chegamos a ter um affair, mas também nunca mais ficamos naquele silêncio interrogativo, nunca mais separados na fronteira do “oi”, nunca mais separados por um questionamento remoto. Enfim, abrir o coração sempre é a melhor saída. Nem que seja para descobrir o imponderável.

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