A irrelevância das notas

Muita coisa me incomoda. Barulho. Aglomeração. Pessoas que só reclamam, mas não fazem nada para mudar pontos de vistas, respirar já lhe é tarefa árdua. O que mais me incomoda? Muita coisa. A ignorância. A maldade (se bem que bondade excessiva também me incomoda). Mas o que mais vêm me incomodando nos últimos dias é a curiosidade alheia. Os bisbilhoteiros de plantão. Conhece algum? Tenho certeza que sim, porém, não são os da vizinhança que quero falar, mas cujo aqueles que sentam perto de nós todos os dias na faculdade, na escola, no cursinho. Aqueles que após receber a prova vem lhe perguntar qual é a sua nota. Desculpe a minha falta de paciência, mas além de isso ser inconveniente: é patético.

Nota serve para que mesmo, hein? Ah, para testar a nossa competência. Para provarmos que somos bons nas disciplinas. Para colocar o nosso grau de conhecimento sobre o assunto e, no final, para passarmos de ano. Nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso? Ok, vamos lá então.

Para começo de conversa as nossas aulas têm “50 minutos”, ou seja, a escola é segmentada pelo pensamento linear e interrompe no meio do percurso, quando estamos entrando no assunto de português, por exemplo, a aula acaba e vamos para matemática e assim sucessivamente. A nota chama-se “grade curricular”. Nossas matérias chamam-se “disciplinas”. A avaliação chama-se “prova”, ou seja, você tem que provar que é inocente. O grau de conhecimento é dividido em “séries”. Você está me acompanhando? Eu estou dizendo que o método do ensino da escola é a mesma do regime militar. A mesma da prisão e da excludência. E eu espero profundamente que você tenha parado nas aspas e tenha percebido o significado delas, que é a minha indignação.

Bom, fora isso, 90% dos conteúdos administrados nas escolas são inúteis. Vou repetir de novo, você ainda não entendeu: 90%!! Isso porque estou falando na escola, agora imagine na universidade… Chegamos ao ponto. Precisamos mexer é no motor disso: a universidade. Porque é de lá que nasce a repetição, a excludência, a classe de poder. É a universidade geradora da prisão que estamos. Não estou dizendo que é culpada, veja bem, estou dizendo que é o motor da educação em todos os países. Tanto que não é culpada que não há um autor por trás da metodologia do ensino. A gente não chama a escola: piagetiana, freudiana ou Vygotsky. Não existe. O que existe é um processo que se desenvolve e cria conflitos por causa dos desdobramentos que há ao nosso redor.

Se você pensar um pouco para o que você sabe trigonometria, os afluentes da margens direita e esquerda do rio amazonas, hipotenusa, ditongo, tritongo e hiato, logo, quase tudo que você sabe é inútil. Daí vem um idiota (desculpe o termo) perguntar o quanto você tirou na prova? Oi?? Você realmente acha que o mais importante é a nota?? O mundo está caindo. Um matando o outro. Pessoas se suicidando e você vai se preocupar com a nota??

Pausa. Viviane Mosé chama isso de burrice conceitual e incompetência cognitiva. Pessoas que se preocupam mais com a nota do que com o conhecimento, ela quer somente o certificado. E digo mais: pessoas que não questiona o conhecimento que está sendo administrado e só copia e nunca cria, é só mais um nessa linha de montagem. E digo mais ainda: quem pergunta a nota para o colega além de ser invasivo é pretensioso porque faz diferenciações do menor para o maior. Do melhor para o pior, ou seja, exclui da mesma maneira.

Meu recado aos inconvenientes de plantão: quando me perguntarem o quanto tirei na prova (o que para mim é tão pessoal quanto à senha do cartão), lembre-se do que eu penso a respeito. Lembre-se dos dados que apontei — que passa longe de ser achismo —, melhor: lembre-se da inutilidade de ter um 10 estampado na cabeça da folha e 0 no pensamento.

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