A parte dois da vida

Foi durante a aula de antropologia desta semana que me impressionei. A professora explicava como é o sociocultural — aqueles papéis que de algum modo somos pressionados a fazer — a tarefa de mulher é lavar e cozinhar. Do homem, trabalhar e assistir ao belíssimo jogo que acontece todas as quartas e domingo. Não é assim que fomos educados, mulheres na cozinha e homens na sala?

Nisso, a professor a qual passei admirar ainda mais, falou também dos gráficos estatísticos do IBGE, que apontou recentemente que homens de cargos de gerência, ganham mais que as mulheres que possuem a mesma função e, muitas das vezes, possuem até mais informação que eles. Não sei se é de se indignar, pra mim é um fato.

No entanto, foi nesse exato momento que uma colega de sala questionou: “Cadê esses gráficos?”, um pouco eufórica e quase gritando, completou: “Como professora, você vem dar aula sem mostrar esses gráficos??? Em base no quê você está falando”. Indignado, olhei para professora na espera de uma resposta à altura, mas não foi o que aconteceu. Para minha surpresa, ela simplesmente fez o contrário. Explicou detalhadamente como funciona a posição hierárquica do discurso em todas as culturas.

Eu, no lugar daquela professora, honestamente, iria dizer: “E você sabe fazer interpretação de gráficos? Sabe o que é método de pesquisa?”, com certeza responderia ao nível — responderia ao nível por causa da minha idade.

Quem dera eu ter 50 anos. A fase em que não precisamos ficar provando pra ninguém que somos inteligentes, que somos excepcionais, ou ficar dando satisfação disso o porquê daquilo. A parte dois da vida proporciona uma séries de coisas, e uma delas, é o contentamento permanente de ser livre.

E por falar em ser livre, presumo que a liberdade — liberdade mesmo — mora na fase dois da vida. É o estado de complacência. Você sabe que não vai mais arrumar encrenca por besteira. Não vai mais comprar briga pelo que outro diz sobre você. Você não vai ficar buscando entender as coisas e tampouco fazer com que o outro entenda suas razões, suas escolhas, suas vontades, seja lá o que for, porque simplesmente não há mais tempo a perder.

Já nós, jovens, garotos que não sabem o que é a vida, ficamos reféns dessa pretensa empatia que é falsa, cuja única função é se aparecer e mostrar para o outro que sabe das coisas. Que é inteligente. Que briga mesmo. Que contesta mesmo. Nessa babaquice ridícula de enxergar em uma pequena coisa o fim do mundo.

Das coisas que a gente só aprende vivendo, é oportuno dizer que a parte um da vida, é muito tola, sem graça e imatura. É também totalmente problemática e confusa. E se eu estiver sendo provinciano, me corrigem, porque isso também me parece ser sociocultural.

Depois que professora explicou calmamente o ciclo das diferenciações impostas pela sociedade, olhei pra ela com um pouco de inveja e também um pouco atordoado, soltei um riso — “como queria ter a sua idade!” — não disse, mas devia.

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