A pessoa certa

Faz de conta que você num dia repentino entrou no aplicativo Tinder, colocou algumas fotos, fez uma pequena biografia sobre si mesmo e então passou a dar like nos atrativos que apareciam em sua tela. Mas você, que acredita que beleza é importante mas não é tudo, fica com um pé atrás. No entanto, num dia inesperado, recebe a notificação que deu match. Se você for um desavisado como eu fui, significa um interesse simultâneo.

Imediatamente você verifica quem é o crush, desliza sobre as fotos, vai ler sua biografia e brinca com a amiga: encontrei a pessoa certa. Depois desse breve período de excitação, deixa o aplicativo de lado e vai fazer outras coisas — para não parecer fácil ou desesperado. À noite, envia um “olá, fulano, tudo bem?” —, porque não suporta a ideia de apenas “oi”. O crush responde e dá se início a um bate-papo pela madrugada.

A relação parece que está fluindo, parece que vocês têm algo em comum. Entretanto, as semanas passam e vocês parecem até um casal, falam obscenidades, falam sobre a perspectiva do futuro, até que, num dado momento, você se vê falando sozinho. Assim, do nada. O crush para de responder suas mensagens, mas você insiste perguntando se está tudo bem, como passou o dia, como anda os negócios, até sugere um plano de mídias sociais, mas nada. Você passa a confiscar a última visualização, o que tem postado, pensa até no que deve estar fazendo.

Eu conheço esse filme, mas essa história não aconteceu com alguém que está no meu epicentro, aconteceu comigo. Eu, que dizia que olhar no celular a todo o momento era coisa de neurótico. Eu, que dizia que jamais faria isso. Eu, que ria de quem fazia isso. É engraçado quando a gente se vê no papel de coadjuvante…

No entanto, quando percebi que minha entrega não era retribuída com a mesma intensidade, quando me dei conta que minha expectativa estava alta demais, calmamente disse a mim mesmo: você não é assim.

Assim, bobo, verborrágico, atencioso, solene. Assim, tão acessível a ponto de impressionar quem não está na mesma vaibe. Quando me dei conta de que não estava recebendo em troca o carinho que mereço. Quando a sinceridade não estava sendo simultânea. Quando estava exigindo algo que o outro não poderia dar, disse: foi bom enquanto durou, mas é melhor pararmos por aqui.

E desde então compreendi que não é no Tinder tampouco na night que vou encontrar “a pessoa certa”. Considerei que papel de coadjuvante não é pra mim e ficou claro, também, que a pessoa certa não existe, pois o “certo” é muito relativo diante do nosso amadurecimento e vontades.

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