Adiamento dos sonhos

Se você é um homem ou mulher de quarenta e poucos anos, sabe quantas renúncias acumulou durante a vida, sabe quantos adiamentos teve que sofrer, seja pela gravidez inesperada, seja pela mudança de cidade, seja por qualquer coisa. Há sempre um motivo nas renúncias — às vezes um motivo bobo, e depois de longo período você se questiona: por que não fui adiante?

Lembro como se fosse ontem quando meu irmão mais velho decidiu abrir sua própria empresa e todos diziam “Não faça isso. Você tem um trabalho remunerado”, “Você tem coragem de abrir mão da estabilidade em busca do que não se sabe direito?”. Lembro que ele ouvia todas as acusações e eu só observava seu posicionamento: ele ouvia e saía calado. Nunca ouvi contestar nada. Mas aposto que essas opiniões que viam carregadas de negatividade foram o real motivou que o fez seguir em frente.

Ao observar sua persistência, fico me perguntado por qual motivo renunciamos aquilo que justifica nossa existência. Por que atravessamos os dias um após outro sem ser complacentes com nossa verdadeira vontade?

Quando queremos algo fazemos de tudo para conquistar, ficamos madrugadas sem dormir, ficamos dias trabalhando num projeto que nem sabe se vai sair do papel, mas você está lá, confiante, acreditando que no final tudo vai sair como planejou — e às vezes nem sai. Fica melhor. E quando não fica, quando tudo dá errado, o desânimo se apresenta, mas há sempre uma brecha esperando por uma nova porta se abrir. E quando ela se abre a gente percebe que o queríamos era tão pequeno…

Observo as pessoas andando nas ruas e vejo que falta um querer de verdade nelas. Algo que os impulsionem para a verdadeira vontade. Pessoas que só trabalham e atravessam os dias como se todos os seus sonhos estivessem adiados. Como se todas as portas estivessem fechadas e não há mais nada há fazer a não ser trabalhar, ir pra casa, dormir — porque sempre temos sono atrasado.

Lembra-se da vontade de fazer intercâmbio, lembra-se do sonho em ter um carro, lembra-se quando tinha anseio por uma viagem à Europa, lembra-se da casa dos sonhos, o que tem feito para alcançar aquilo que deixou adormecido dentro de você?

Basta que evitemos os sonhos para que o cansaço se apresente. Adiar as vontades, adiar aquilo que mais significa é uma sucessão de desistência. O adiamento dos sonhos só devia acontecer quando não há jeito mesmo, quando todas as possibilidades forem esgotadas, quando o impossível se apresentar, caso contrário, todos deviam apostar.

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