Ai de nós se não fosse a música

Eu estava na fila do banco quando ouvi uma mãe pedir a filha para abaixar o volume do celular. A menina virou os olhos e disse para a mãe num tom severo: “Oxi, tu queres que eu abaixe o volume para quê? De jeito nenhum. Ai de mim se não fosse a música”. Sorri silenciosamente por dentro enquanto tirava poesia da situação.

O sotaque revelava que não eram daqui, no entanto, independentemente de onde vieram, tenho o mesmo hábito que aquela moça. Coloco a música no último para sentir a vibração, e sempre escuto: “Abaixe esse volume se não vai ficar surdo”. Finjo que abaixo, mas é mentira.

Tenho a necessidade de sentir os instrumentos vibrando e sentir a emoção de quem está cantando. Tenho vontade de entrar no ritmo da canção, na maioria das vezes, entro, e me arrepio com a mensagem. Gosto da intensidade da música a ponto de me sentir um instrumento enquanto ouço. Quando estou triste, quero músicas melancólicas. Quando estou alegre, quero músicas que me motive a continuar alegre. Sou extremamente intenso e não evito nada, tampouco a solidão.

“Eu não sei o que o meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e nem me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago de razão/ Eu ando tão down…” Cazuza era mestre em usar metáforas para se justificar. Possuía uma perspicácia porque cantava o que vivia.

Neste exato momento em que escrevo, estou ouvindo uma canção de Laura Pausini a qual relata um alguém que descobre em meios aos escombros de viver o verdadeiro sentido da vida. “O que é a solidão?/ O que é?/ Tenho vontade de decidir isso/ por mim…” A letra fala ainda como é descobrir o processo de fazer companhia para si mesmo.

Ando ouvindo também aquela canção: “Hoje saio da noite vazia,/ numa boêmia sem razão de ser./ Da rotina dos bares,/ que apesar dos pesares,/ me trazem você./ E por falar em paixão/ da razão de viver,/ você bem que podia me aparecer/ Nesses mesmos lugares,/ na noite nos bares,/ onde anda você./ E por falar em saudade/ onde anda você…” Ah, quando essa canção toca me dá vontade de arrastar os móveis e dançar lentamente. Vinicius de Moraes cantava a simplicidade, a leveza e não é à toa que segue vivo na nossa memória.

Quase interrompi aquela garota para dizer: ai de mim não, colega, ai de nós. Ai de nós se não fosse a música para alimentar a alma dos exaustos. Para alimentar a nossa sede e acalmar o espírito de quem vive na intensidade das coisas. Ai de nós se não fossem as canções que chegam na hora exata para iluminar as noites antes de pegar no sono.

Ai de nós se não fosse as canções que nos fazem sentir saudade de um amor que já nos aconteceu ou de uma lembrança da infância. Ai de nós se não fossem as músicas para preencher os nossos dias, as nossas madrugadas, as nossas fantasias. Ai de nós se não fosse a música diante da raiva, diante das brigas.

Ai de nós se não fosse a música. Ai de nós.

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