As palavras não me chegam

Eu queria escrever um lindo texto. E que as palavras que estão saindo dos meus dedos, enquanto digito, alcançassem milhares de pessoas. Eu queria que a leitura fosse adocicada e quem está aí do outro lado pudesse ouvir minha voz e sentir a emoção que me invade neste momento.

Eu queria que este texto ecoasse dentro da Maria, do Marcos, do João e que ao final da leitura se sentissem abraçados. Eu queria que as pessoas se sentissem melhor, menos angustiadas, menos tristes, menos obsoletas.

As palavras, como se sabe, têm o poder de tocar e abrigar as pessoas. As palavras, dependendo de quem a escreve, têm o poder de transmitir emoções diversas. As palavras falam, saltam pelos dedos, ganham vida, ganham forma, saltam pelas ruas e ganham vidas em outras casas.

Mas palavras têm brigado comigo. E isso é o que me entristece. As palavras não me chegam. As palavras não estão saindo mais espontaneamente. Elas-não-me-chegam! Eu fico horas e horas olhando para o branco da tela e esse vazio vai, aos poucos, me angustiando, me deixando inquieto. Eu não estou reconhecendo mais minha voz, o tom, o estilo, a forma. A verdade é que as palavras deixaram de fazer conexão. Elas se perderam de mim e eu delas.

Eu não reconheço mais o sentido das pontuações, o motivo das reticências, a intenção dos pontos finais. Eu não me reconheço no que escrevo. Me disseram que minhas palavras estão vazias, que elas não estão sendo claras, que elas estão cada vez mais sem conexões.

Então eu me levanto, vou tomar um café e recolher a roupa que está no varal. O tempo nublado indica chuva. O céu acinzentado reflete em meus olhos a tempestade que está a chegar.

Então eu choro, me sinto pouco útil, me sinto vulnerável e inseguro. Escrever tem sido árduo, as horas se passam e me perco nas horas. Fico preso nos parágrafos, as frases não tem consistência e as palavras não me chegam.

Pensei em parar de escrever, logo eu que não escrevo para ganhar holofotes, mas para me sentir pleno, sereno, inteiro. Pensei em deixar de lado. Escrever menos e ouvir mais, escrever menos e observar mais. Ora, ora, as palavras não me chegam. As palavras não me chegam.

As palavras não me chegam!

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