Carona com estranho

Sai atrasado do trabalho naquele dia, como não digiro e tenho que atravessar a cidade toda para chegar à faculdade, uma santa apareceu. Eu estava no ponto de ônibus, com fones no ouvido e a meu lado havia uma moça, que também estava com fones. Foi coisa de minutos, uma mulher que aparentava ter 45 anos parou e disse: “Vocês querem uma carona? Moro perto do terminal e deixo vocês lá”. A moça que estava ao lado recusou. Eu, quando me dei conta já estava dentro do carro. Claro que naquele momento passou pela minha cabeça as coisas mais bizarras que nos ensinaram quando criança — e se ela me sequestrar, e se me assaltar ou quiser me levar para bem longe, o que eu faço?

Todos nós temos certa intuição quando se está em perigo, mas não era o caso, não senti malícia da parte dela. No entanto, se houvesse alguma apreensão que chegasse a pensar em pular do carro, foi embora quando ela disse: “Quando eu comecei a trabalhar não tinha carta de habilitação e ao final do expediente rezava para um santo me dar uma carona, como nunca aconteceu, faço o oposto, dou carona para quem eu ver no ponto de ônibus e aparentar ter boa índole”. Olhei pra ela e disse que esse gesto é raro, ainda mais hoje em dia, em que cada vez mais estamos plugados no piloto automático sequer olhamos para os lados.

Durante o trajeto, conversamos sobre como o trânsito está cada vez mais fraudulento e como as pessoas estão sem paciência. Mudamos de assunto e começamos a falar sobre o sensacionalismo de alguns programas de tevê, rimos quando colocou uma música que lembrava a juventude dela e rimos mais ainda quando eu disse que achava a música cafona, era de Zeca Pagodinho.

Quando o sinal parou, retocou o batom e perguntou se eu estudava, então disse que cursava jornalismo e como inúmeras vezes eu pensei em trancar o curso por ser um universo tão oportunista quanto quem trabalha no Senado. Ela disse que em qualquer profissão haveria coisas semelhantes como competitividade, jogo sujo, até concluir: “Esse povo não tem mais o que fazer? Tudo vai dar em nada”. Olhei pra ela e confirmei: realmente, não vai dar em nada. Ela sorriu e eu sorri junto. Parecia que a conhecia há muito tempo. Conversamos sobre coisas que nunca conversei com minha própria mãe, que me vê todos os dia, que fala comigo todos os dia. Ela era tão autêntica, era a mãe que não tinha e que almeja ter.

Quando chegamos ao terminal, ela disse: “Obrigado pela companhia nesse pequeno trajeto”. Então agradeci pela conversa e pela carona tão afortunada quanto encontrar dinheiro na rua. Ela perguntou meu nome e eu o dela. Eu e a Maria Alice trocamos um beijinho no rosto e cada um tomou seu rumo.

Moral da história: nem todo estanho é sujeito de má-fé, é apenas um ser humano como qualquer outro. Na verdade, estranhos somos nós que ainda acredita que bons gestos andam em falta, e que, por precaução, não abre o espírito para o que é trivial, a vida.

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