Carta ao passado

Não sei por que o fato do meu dia começar exaustivo bateu em mim uma vontade repentina de lhe escrever. Aqui, agora, onde estou, não é um lugar tão fascinante como um dia imaginamos que fosse. Muitas coisas acontecem e na maioria das vezes não damos conta da solidão que é atravessar os dias. Aqui, o dia voa. Tudo é muito acelerado. As pessoas não costumam conversar umas com as outras, quase não riem, não há leveza como na virgindade existencial, tampouco a inocência que é a infância. Aqui é assombroso.

Acreditamos que o mundo adulto é fascinante porque há um quê de encantamento no que chamamos de independência. Mas hoje consigo perceber a diferença de se ter independência e ser alienado. No lado de cá, as pessoas trabalham, trabalham, trabalham e muitos nem sabem o porquê trabalham tanto. Desconfio que seja medo de reconectar consigo mesmo — todos nós de algum modo possuímos medos que levamos entranhado, mas enfrentá-lo de fato: é pra poucos.

Do lado de cá, tem corrupção (e talvez você nem saiba o que é essa palavra), tem desigualdade de todos os tipos. O mundo adulto é muito hierárquico. Não que aí não seja, aí é e desconfio que continuará sendo por um bom tempo, porém a hierarquia na infância é para colocar limites, para quando crescer tornar-se uma pessoa autônoma e responsável. O mundo adulto faz o contrário, aqui clamam por poder e esquecem todo o resto.

Aqui as pessoas querem autonomia, mas desprezam a responsabilidade. Ninguém pensa que para ser autônomo antes de tudo precisa da responsabilidade. Responsabilidade essa de respeitar o limite, respeitar o processo de crescimento, respeitar a vida, o outro, a si mesmo e tudo aquilo que faz parte de nós, ou seja, tudo.

Que bom que você escapou desse mundo tão macabro e violento. Nunca saberá como é atravessar os dias e as noites sem correr o risco de ser assaltado a qualquer momento. Não virei nenhum pessimista como se deve imaginar, mas brutalidade é uma palavra que resume o nosso presente.

Se bem que, você não precisou passar pelo constrangimento e pela ingrata injustiça de precisar corresponder às expectativas dos outros. Aqui há uma cobrança maior que a infância. Você tem que estudar (até aí tudo bem), casar, ter filhos, ter um bom emprego e aguardar à morte até que ela chegue. Como se para ser feliz precisasse de um script.

Minha saudosa e amiga infância, você nunca saberá como é duro viver em meio aos apressados e nunca saberá como é complicado conviver com os adultos que se julgam tão sábios. O que me salva é escrever longas e lindas cartas para você que me acompanha mais com sua presença do que aqueles que estão ao meu redor.

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