Chegar aonde se quer

Ontem revirei minha estante inteira em busca de uma frase que li num livro. Mas não achei. Tudo por causa do que ouvi dia desses ao assistir pelo Youtube o programa De frente com Gabi. Já falei dela outras vezes e a cada dia me surpreende mais. A entrevista aconteceu em março de 2014 com o Gustavo Lima, no entanto, fiquei pensando na pergunta em que ela fez: “Aonde você quer chegar profissionalmente?”. E então ele respondeu: “Já cheguei aonde queria chegar!”. Franzi o cenho enquanto ela retrucou perguntando a idade dele chocada com a afirmação. E pensei comigo mesmo: ele deve ser muito frustrado. Se não é frustrado é muito feliz — o que dá no mesmo.

Fiquei imaginando uma pessoa totalmente realizada aos 25 anos; sucesso, fama, tudo aquilo que almeja pode ter. É só balançar o sino e tudo está à mesa. Hoje temos Escargot e Coq-Au-Vin; e de sobremesa Petit Gâteau. Bonne hapetite. Até rimam, mas é cafona.

Não lembro exatamente como era a frase, mas é mais ou menos assim: coisa mais frustrante é chegar aonde se quer. Epa, uma frase ambígua aqui meu povo. Como assim é frustrante chegar aonde se quer? Nunca havia concordado com o tal autor, mas me parece que faz algum sentido hoje e explico o porquê.

Quando indagamos que chegamos aonde queríamos, automaticamente, estamos dizendo que não há mais nada a se desejar logo à frente. Talvez seja por isso que não havia entendido a frase. Pois, chegar aonde se quer, é permanência. Intuo eu que, pensar aonde se quer chegar, é facultativo.

Digamos. Facultativo porque alcançar um sonho é legítimo, mas em contrapartida, tudo pode acontecer. E é preciso almejar alguma coisa. É preciso colocar-se em movimento. Colocando-se em movimento nos deparamos com as coisas circunstâncias. É o abrir-se para o imprevisto do caminho.

Chegar aonde se quer é onde mora a frustração. Uma vez decretado e carimbado um desejo, um sonho; nasce à permanência da dúvida — aquela que você já tinha quando era apenas uma especulação. Chegar aonde se quer é um prato cheio de vaidade. É o excesso do “eu”. É o excesso de estar. Chegar aonde se quer é exaustivo demais. É o não saber o que fazer com o resto dos dias. É a frustração pelo dever concretizado. É o sonho que agora virou pesadelo. É a convivência eterna com a realização.

Já pensar aonde se quer chagar, é diferente. É saber que você vai. Que você pode. Que logo à frente você alcançará. Mas antes de tudo isso acontecer você se abrirá para os acidentes de percurso. Pensar aonde se quer chegar, é a consciência da contingência, é a esperança viva que logo ali na frente nem tudo pode acabar como imaginamos, que podemos sair mais machucado do que quando entramos, mas, ainda sim, é a confiança viva de que tudo poderá terminar bem — mesmo que não. Pensar aonde se quer chegar é o se abrir para todos os horizontes. É o se desconstruir no meio do percurso. Já quem chega aonde quer: nunca tem.

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