Coisas que não entendo

Hoje acordei com o ímpeto de sair por aí sem rumo. Andar, andar e andar até que minhas pernas peçam uma pausa. Bateu uma vontade de viajar pelo mundo todo e conhecer cada cultura, aquilo que me assombra e aquilo que me cativa. Passar uma temporada na Europa, dar um pulo no Canadá, depois ir para o Estados Unidos e, só então, quando me cansar, voltar pra casa, voltar para o meu conforto, para minha cama, que conhece tanto o meu corpo.

Por que bateu essa ânsia repentina? Não sei. Não há nada de estranho acontecendo. Tudo segue o curso normal. Mas é justamente isso que falta. Falta acontecer alguma coisa. Arriscar-me mais, me jogar de corpo e alma no desconhecido. Embarcar para algum lugar sem endereço anotado, sem celular e GPS.

À medida que o tempo passa a gente vai se dando conta do quanto é exaustivo atravessar os dias sem que haja um estupor, uma emoção. Óbvio que para uma viagem longa fora do país precisa-se de planejamento e um bom dinheiro para se bastar. Mas não precisa ser para fora do país, pode ser uma viagem para outro Estado, conhecer uma cidadezinha no interior e ficar lá até que volte a sentir saudade da metrópole. Mudar de emprego, de profissão, arriscar fazer o que nunca fiz.

O que me impede? Nada. Nada me impede. Não sou casado, não tenho filhos. Não há nada que me prenda. Acho que é isso que falta nas pessoas: desprender-se de tudo.

A vida é muito curta para ficar engessada ao definitivo (que de definitivo não tem nada) enquanto poderia estar contemplando o pôr-do-sol; a vida. É isso que não entendo. Eu não entendo o que leva uma pessoa ficar presa a um emprego durante 20, 30 anos — mesmo sabendo que não terá um retorno emocional. Eu não entendo como alguém consegue ficar até 12 horas dentro de um escritório sem contemplar o dia, sem sentir o vento no rosto, sem contemplar um estranho andando na rua.

Eu não entendo o porquê as pessoas ficam presas a um casamento durante 40, 50 anos sabendo que não há mais amor, não há mais sintonia, não há mais nada além de amizade. Ambos fazendo mal a si mesmos por medo de embarcar no desconhecido.

Eu não entendo o motivo de passarmos a maior parte do tempo trabalhando, estudando, muitas vezes fazendo nada, mudando de canal dia após dia tornando-nos reféns da tevê, da internet, num sedentarismo enquanto isso o globo gira.

Eu não entendo o porquê de termos tanto medo do desconhecido, tanto medo de atravessar a rua, a cidade, sem ter uma prévia do destino. Eu não entendo o porquê de sermos tão concretos mesmo sabendo que não temos controle sobre nada. Atravessamos os dias numa tentativa inútil de controlá-la. Planejamos o quanto vamos gastar; o que vamos fazer no almoço, na janta; fazemos a lista de compras; planejamos a semana seguinte, o mês seguinte, o ano seguinte e não tiramos o dedo da tomada. Até que num certo momento dá-se o curto-circuito. E quando vemos estamos sobre uma cama, imóvel.

Eu não entendo o porquê da gente se alienar a todas essas coisas. Eu não entendo o porquê da gente se entregar à morte estando em vida.

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Que 2017 seja ano de recomeçar. Recomeçar uma nova vida, renovar as escolhas, renovar a si mesmo. Eu desejo que tenha coragem de abrir mão daquilo que não o agrada mais. Que você possa desapegar da dependência que tem no outro. Que possa ainda se olhar no espelho e ver o quanto ainda dá tempo de realizar muitas coisas. Feliz 2017. (Como de costume, ficarei fora por algum tempo, também mereço férias, volto em março. Até lá.)

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