Com o passar dos tempos

Descobre-se com o passar dos anos a nossa verdadeira vocação, onde temos mais afinidade, mais aptidão; mais desejo. Descobre-se também que a palavra felicidade não é tão importante, o que vale mesmo, é uma vida bem aproveitada. Que ser feliz têm lá suas vantagens, mas o que enriquece a alma são os pequenos momentos felizes.

Com o passar dos anos, a gente percebe facilmente aquilo que é inútil e o que é trucagem. Vamos aos poucos refinando os nossos laços, abrindo os nossos horizontes, deixando para atrás as coisas menos importantes como alguns rancores que inevitavelmente cultivamos.

Aos poucos, vamos desapegando do cordão umbilical e abrindo o espírito para a transgressão. Vamos abrindo olhar para a vida, amadurecendo o corpo e ao mesmo tempo rejuvenescendo a alma.

Percebe-se que vale mais a pena uma vida com verdadeiros amigos a conviver em multidão de gente apenas por status. Que tudo que nos expõe demais, perde-se a essência. Uma noite numa balada, um dia inteiro com a namorada. Uma vida inteira se escondendo atrás do outro em busca de algo que não se sabe direito.

Aos poucos, com o tempo, valoriza-se o convívio com si próprio. Que nada nos desagrada tanto como estampar no rosto um riso nocivo. Obrigar-nos a rir quando a alma chora. Pedir um abraço quando se recebe uma violenta palavra. Quando se espera um olhar afetuoso e recebe uma incompreensão.

Com o passar dos anos, aprendemos a ignorar aquilo que é modismo ou passatempo para reverenciar a introspecção. Que solidão deve ser vivida com a mesma intensidade que damos a alegria. Que mais vale uma noite mal dormida do que um dia todo de exaustão.

Com o passar dos anos, aprendemos a nos conhecer, quando somos chatos, quando somos intolerantes; o que queremos, para onde vamos e o que faremos. Aprendemos a respeitar a nossas falhas; ora, elas também são dignas e devem ser respeitadas.

Aprendemos que o erro muitas vezes vale mais que um acerto. Que o erro tem lá o seu charme. Que tudo aquilo que nasce do erro também pode ser um grande acerto. Porque é o erro que nos humaniza.

Aprendemos, também, que se manter muito concreto é limitador. Que muitas vezes uma dúvida tem mais conhecimento que uma verdade absoluta. Aprendemos a conviver com as falhas, com a falta de respostas, com a falta de tudo aquilo que não compreendemos direito. Aprendemos a ter menos medo e mais garra, menos raiva e mais força, menos molecagem e mais sabedoria.

É como o passar dos anos que a gente cresce. É com o passar do tempo que ficamos menos propensos ao imediatismo. É com passar dos anos que ganhamos números, mas é com o passar dos tempos, que a gente se descobre.

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