Comido pelo tempo

Já fui daqueles se preocupava com tudo. Pensava antes de fazer algo, calculava o tempo que levaria para ir de um lugar a outro, na metade do mês sabia o quanto viria à fatura do mês seguinte, sabia cronologicamente o que teria que fazer no dia seguinte, na semana seguinte e planejava o ano seguinte; enfim, eu era um robô metódico e calculista. Acreditava que levar a vida dessa maneira era mais seguro. Porém, segurança demais nos impede de ver as miudezas das coisas, além de nos limitar.

Isso mudou quando me dei conta de que nunca estaremos seguros em qualquer lugar que estejamos. Podemos ter muito de dinheiro na conta (o que não é o meu caso), podemos ter estabilidade, as coisas podem estar tudo sob o controle, mas sempre seremos pegos pela circunstância da vida.

Seu carro vai quebrar exatamente na hora em que você mais precisa, sua mulher vai criticar o seu jeito de conduzir as coisas no momento em que você precisa mesmo é de um abraço, você vai comprar um carro justamente quando está prestes a ser demitido.  Não é assim que acontece, uma catástrofe atrás da outra? Por isso que me rendi. Me rendi mesmo. Levantei as mãos para o alto e disse: vida, me leva. E ressaltei: pode tirar minha roupa eu deixo. E de uns tempos pra cá, ela vem me comendo.

Isso se confirmou há uns três meses quando recebi a ligação da gerente do banco. A moça, toda simpática, perguntou quando eu ia quitar a divida. Já que ela teve a audácia de me chamar de senhor, tive a audácia de chamá-la de senhora. Respondi: “Senhora, gostaria muito, muito mesmo de quitar esta divida, mas como não tenho dinheiro, sendo assim é impossível pagar. Obrigado pela atenção e aguardo sua ligação no próximo mês. Até breve”. Ela deve ter entrado na gargalhada após a ligação ou acreditar definitivamente que sou um louco. Louco eu era, minha filha, agora não.

Essa minha atitude andou servindo até mesmo na vida social. Muita dramatização, muita fofoca, muita piada sem graça, muito negativismo, bocejo uma, duas, três vezes e lá vou eu procurar a porta de saída. Que desculpa eu dou? Estou dormindo pouco, o tempo anda me comendo.

Ele anda me comendo mesmo. Desde quando me rendi venho sentindo uma liberdade que nunca havia apreciado. Agora, observo o instante, ando observando as árvores até mesmo os pássaros e seus cantos. O tempo foi tão bom comigo que consegue quitar a divida no banco.

Fui comido pelo tempo e acabei gostando.

Comments

comments

Deixe uma resposta