Coragem para ter fome

Era um sábado à tarde. Ele saiu de casa junto com os pais, irmãos, tios, primos e amigos para comemorar seu aniversário. Por tradição, a família se reúne em casa e vão todos a pé. No caminho, falavam sobre o que iam comer, sobre o frio, sobre a vizinha que só grita com o marido; por outro lado, ele, sempre contraído, pensava sobre o futuro. Não era um garoto como os outros daqueles que só gostam de se aparecer. Ele não, ele era observador. Ficava atenta sobre todas as coisas.  

Quando chegaram ao shopping andaram pelas lojas e logo em seguida foram comer. De repente observou um senhor pela janela, um homem com roupas rasgadas, descalços, com um cobertor nas costas, cujo olhar era de profunda tristeza. O garoto, que tinha tudo para ser mimado, interrompeu a conversa e perguntou a todos os familiares que ali estavam se já tinham visto aquele pobre homem parado a poucos metros de distância. Na ponta da mesa alguém sussurrou: “Um mendigo, você quis dizer? Relaxa, ele não é ninguém”.

Avariado pela ignorância do tio, levantou-se e foi ao banheiro. Enquanto lavava as mãos, refletia sobre a origem do homem. Quem ele era, o que fazia da vida, se tinha família. Ali, diante do espelho, questionava o porquê de sempre procurarmos os antecedentes dos outros para confirmar a existência. Ao sair do banheiro, estava decidido ir falar com o “Seu” Ninguém, mas sua atitude foi interrompida por ouvir tiroteios na praça de alimentação.

Havia tiros para todos os lados, ao sair do banheiro viu três homens de preto a uns 100 metros a sua frente. Seu coração acelerou, e naquele momento fatídico, correu e se escondeu debaixo de uma mesa, ali, naquele lugar restrito para seu tamanho, tentou achar seus familiares e em meio àquela gritaria começou a chorar desesperadamente. Segundos depois, um tiro acertou o peito de um senhor que caiu bem à sua frente. Ao ver o corpo imóvel, correu para fora do prédio, naquela gritaria em que havia policiais e ambulâncias para todos os lados, observou a distância o “Seu” Ninguém entrando no local para pegar um prato de comida. Tentou impedi-lo, mas ele insistiu.

A poucos metros de distância ouviu sua mãe gritando seu nome. Seu pai tinha sido baleado, e logo em seguida, faleceu. Enquanto médicos prestavam os primeiros socorros e os polícias procuravam os três suspeitos que haviam premeditado o infortúnio, o garoto ficou indignado pela falta de limites culturais. Ali, diante do seu pai, se revoltou com a vida dos mais favorecidos e dos menos favorecidos. Indignou-se com os policiais pela falta de empatia e frieza. Enfureceu-se com a relação de poder e falta de humanidade.

Aquele dia nunca mais foi o mesmo para ambos. Ele, depois do incidente, tenta levar a vida em frente. Enquanto o “Seu” Ninguém teve que admitir a fome diante da tragédia.

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