De onde vem à inspiração?

Outro dia um amigo meu perguntou de onde surgem as ideias para escrever crônicas. Perguntou em que lugar eu escrevo, que horas escrevo, o porquê escrevo, sobre o que escrevo, se tudo pode torna-se crônica, e, por fim, perguntou se acredito em inspiração. Olhei para ele depois dessa enxurrada de perguntas, e disse: É uma entrevista?, procure meu assessor.

Rimos e voltamos ao assunto.

Por incrível que pareça nunca me perguntei o porquê escrevo. “Não sei” vale como resposta? Saramago disse certa vez que somos todos escritores, só que uns escrevem e outros não. Desconfio que seja isso mesmo. Somos todos autores da própria biografia. Somos todos contadores de histórias. Cada um de nós narra as vivências de uma forma muito particular, em algumas histórias colocamos um pouco de drama, noutras colocamos mais humor, mais leveza; e em tantas outras, colocamos uma problemática que talvez nem fosse lá tão grande.

Eu mesmo, às vezes me pego observando as coisas que talvez não tenham nenhum valor. Nenhum ticado. Às vezes uma frase de um livro pode render uma crônica, e acreditar fielmente que aquela frase resume muita coisa, mas talvez quem leia não veja nada de diferente.

A verdade é que o nada me inspira. O nada é o tudo.

Uma vez uma escritora, que já nem lembro o nome, disse que inspiração é o olhar. Sabe aquele detalhe que passa muitas vezes despercebido? Então, é ele o dito cujo que muitas vezes me impede de dormir à noite, é ele que me faz levantar de madruga, ir até o notebook para escrever um texto.

Cada texto tem sua particularidade. Cada texto tem uma história. Às vezes acontece de estar deitado, assistindo a um filme, e o personagem dizer duas palavras e aquilo despertar o meu interesse. Daí eu levanto e vou lavar a louça; enquanto lavo a louça, vou escrevendo o texto na minha mente, fazendo conexões da frase do filme com a vida, e aquela frase pode me levar a uma lembrança da infância, e quando vejo: o texto nasce, assim, na espontaneidade da coisa.

Por que escrevo é uma pergunta muito difícil.

Talvez eu escreva não para impressionar, mas para dar leveza a alma cansada. Porque é só escrevendo que consigo me reencontrar. Como disse Saramago outra vez: “nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida.” Se você sabe o que faz com sua vida, se você busca, almeja e planeja, sua biografia pode não virar best-seller, isso nem é importante, mas pode, sim, plantar uma semente na geração que está a chegar. Todo dia há de ter uma história a se contar.

Consegue me entender agora? Escrevo para respirar.

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