Desastre de amigo secreto

As festas de fim de ano acabou, o “novo ano” já começou e o que me resta é tocar num assunto pouco recorrente, mas que no fundo implico desde minha adolescência: os desastres de amigos secretos.

Pois bem. Nunca tive sorte em amigos secretos. Tenho uma bagagem bem recheada de frustrações embora que, se estipulam um valor simbólico, ninguém deve sonhar em ganhar um perfume da O boticário ou um relógio importado. Mas a primeira vez em que participei da desastrosa brincadeira foi na 5ª série e preparei um discurso bem legal para presentear meu amigo, além do esforço para saber o que gostaria de ganhar, entreguei uma cesta pequena de chocolate e, para minha sorte, ganhei um boné.

Eu tenho cara de quem usa boné? Meu amigo secreto foi tão bondoso… deduzo que entrou em uma loja qualquer e pegou o primeiro que viu na frente. Ah, e detalhe: imagine eu abrindo o presente e deparando com um boné, era nítido meu entusiasmo.

No ano seguinte, foi amigo chocolate novamente, e pelas minhas contas, tinha que ser um presente bem criativo, pois o valor que ia desembolsar dava para fazer uma cesta de chocolate e ainda comprar alguns ursinhos de pelúcia — naquela época, veja bem. Hoje você não consegue comprar nada com 50 reais.

Mas resumindo, fiz uma bela cesta de chocolate e deixei meu amigo secreto bem feliz e, em troca, recebi uma caixa de bis. Peguei aquela caixa de bis e joguei no lixo — na frente do meu amigo de infortúnio. Eu era terrível naquela época…

Quando comento esse incidente as pessoas desacreditam que tive a ousadia de jogar no lixo aquela caixa de bis. Tive a idade da revolta também, ok?

Entretanto, mudei muito de lá pra cá. Em hipótese alguma cogitaria, hoje, jogar um presente no lixo. Mas acredito que essa mudança de comportamento se deu porque anos mais tarde tive a oportunidade de conversar com o dono da caixinha de bis. Tive a curiosidade, numa cena inusitada, de saber o porquê uma caixa de bis e não um suflair.

Ele ficou sem graça por fazê-lo recordar da cena, pediu desculpas e disse que os pais não tinham dinheiro para comprar algo melhor, disse também que pediu a tia para dar algum dinheiro e o que deu para comprar foi uma caixinha de bis. Sem remorsos, nos abraçamos e nunca mais um ouviu falar do outro.

Mas quem devia desculpas àquele garoto era eu por ser um incompreensível, por numa atitude de mesquinhez e tamanha ignorância, jogar a caixa de bis fora.

Depois desse equívoco, prometi a mim mesmo que nunca mais iria participar de amigo secreto, não por ganhar presente bom, mas porque já se perdeu a essência da coisa. Hoje, prefiro dar presente sem data marcada, sem comemoração, sem encenação na hora do discurso. Prefiro entregar um presente num dia comum para extrair a verdadeira alegria do meu presenteado.

No entanto, voltei a participar. Da última vez ganhei uma camiseta da hollister — nunca usei do portão de casa para fora, mas também não coloquei pra pano de chão.

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