Desistência de um amor

Eu desisti da nossa relação porque descobri que teu silêncio abria portas para as reticências — e você sabe, quietude pode ser confundida com ausência. Ausência de palavras, ausência de sintonia, ausência de conexão. E por mais que eu insistisse nessa história sabia que a permanência seria uma completa e indeferida perda de tempo.

Eu desisti da gente porque eu me vi diante de um olhar perdido, de um sorriso frouxo, de uma vontade quase que adormecida. Eu desisti da gente porque não podia aturar sua compostura e seu desprezo. Eu não podia aturar você tirando de mim aquilo que levei tanto tempo para construir: a decência em me amar em primeira instância. E por mais que você dizia que era exagero da minha parte, eu sabia que estava tentando fugir da situação porque não queria admitir o nosso fracasso como amantes.

Eu desisti dos sonhos que construí em cima de noites tão curtas porque me dei conta de que não estava recebendo em troca o carinho que mereço, porque percebi que minha entrega não era retribuída com a mesma intensidade. Eu desisti da gente, porque sabia que não ia ter futuro entre nós — e saber disso me doía inteiro.

Me desculpe, mas eu não podia ser suscetível a uma situação tão descabida, como naquela noite de lua cheia em que você se irritou, me deixou falando sozinho, alcançou a porta enquanto eu afirmava “você não pode fazer isso comigo!”, e sem consideração alguma veio a fechá-la, sem pedir licença, sem dizer nada.

A tua crueldade me deixava ácido e isso não podia ser supervalorizado como uma contingência, aliás, eu não queria, eu não podia me sentir assim. Eu me sentia abandonado em sua presença, era como se eu não estivesse ali mesmo estando.

Eu desisti da nossa história porque eu queria alguém inteiro, é que eu não gosto de meio-termo. Eu queria corpo e alma, vontade e desejo, amor e sexo, abraço e afeto, beijos e carícias. Eu queria tudo. E você com sua arrogância e falta de sensibilidade: não podia me entregar nada.

Eu desisti da gente porque descobri no instante em que virou as costas que tua ausência havia despertado em mim uma leveza que há tempo não reconhecia. Não foi por engano que depois de tantos altos e baixos dessa relação fajuta que consegue me reencontrar, que consegue me olhar no espelho e reconhecer meu sorriso, a minha alegria, a minha suavidade.

Foi no momento em que constatei que você já não me fazia falta que pude perceber o quão valioso era meu tempo — o mesmo tempo que me fez entender que tua ausência me trouxe de volta a superfície, a vida.

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