Desvios

Aconteceu num sábado à tarde. Eu estava dentro da estação de trem, em São Paulo, avariado, para cada lado que olhava havia uma escada que dava acesso a um bairro. Meu coração começou a bater mais forte: o que eu faço, estou perdido.

Em seguida lembrei-me dos traumas de infância, aquela pressão que todos os pais depositam na gente quando pequenos: “Não converse com estranhos”. “Caso aconteça de se perder procure a polícia e fique em algum lugar seguro.”

Eram aproximadamente 17h30 e fui submetido a minha infância. No meio daquela quantidade de gente andando para todos os lados me vi sem rumo: o que eu faço, peço ajuda, será que consigo atravessar a rua sozinho? Devo mesmo encontrar a polícia? Daqui a pouco vai escurecer.

Meu destino era a livraria da Vila, que fica no bairro Higienópolis, por fim, encontrei um guichê, que atrás do balcão estava uma moça, quando me aproximei perguntou se estava tudo bem e se precisava de ajuda. “Para onde você quer ir?” Não lembro o que respondi, mas antes de responder eu queria mesmo me encontrar. Encontrar o rumo de casa, moça qual é o caminho mais rápido para voltar? Depois de explicar para ela onde queria ir, mostrou uma rota mais curta, já que estava em cima da hora.

Contei isso porque basta encontrar um desvio e logo querer ir para de baixo das asas dos pais. Como se não bastasse querer voltar a brincar no quintal tão conhecido, compreendi naquele dia que os ensinamentos que nos deram quando éramos pequenos influenciarão nas nossas atitudes até tornarmos adultos. Por um acaso alguém aí é totalmente adulto?

Diante do medo várias coisas se passaram pela minha cabeça, e se eu não conseguir voltar para casa, se alguém me sequestrar, se eu me perder. Os nossos medos nasceram na infância quando nos mostraram os perigos da vida, quando nos ensinaram excessivamente que atravessar uma rua pode ser tão perigo quanto ficar sentado. Somos homens e mulheres que cultuam o medo. Homens e mulheres que por debaixo do terno e vestido leva-se um carrinho e uma boneca.

O que fazer para aniquilar os nossos traumas de infância? Não sei. Cada um processa os ensinamentos de uma forma muito particular. Mas enfrentá-lo talvez seja o primeiro passo. Quando ficamos perdidos e sem rumo, perde-se também as referências por um tempo determinado, mas são os desvios que deixam a vida mais interessante e nos colocam em contato com nós mesmos, permitindo o pavor, o coração acelerado, o suor frio, o desespero para depois nos levar até a independência.

Analisando a minha vida até aqui, concluo que nunca me perdi, se houve desvios no final das contas acabei me encontrando.

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