E se tudo fosse diferente?

Ela estava ao meu lado. Era uma garota inquieta, daquelas que não se contenta com uma coisa só, era daquelas que sabe bem o que quer e faz o possível e o impossível para conseguir. A mãe dela, sentada numa outra poltrona isolada com a revista Caras em mãos, só observava a menina de relance enquanto virava às páginas.

— Filha, cuidado para não esbarrar no moço! — falou a mãe olhando para mim de soslaio.

Ela devia ter uns 7 anos. Ou 9. Não sou um bom em deduzir. A garotinha sentava no sofá e não ficava mais que dois minutos, logo levantava novamente para pintar o caderno numa mesinha ao lado. E a mãe entretida na revista. E eu observando as duas.

Enquanto isso passava o Jornal Hoje com as mesmas notícias de sempre: mais de 700 pessoas morrem durante tumulto em Meca. Crise afeta atendimento no hospital. BC diz que Brasil pode usar reserva internacional para conter alta do dólar. Cresce a taxa de desemprego. Criança morre baleada em favela do Rio de Janeiro.

A garotinha parou de rabiscar o caderno por um momento e ficou observando o noticiário. O que será que está se passando na cabeça dela? No que será que ela está pensando? Está indignada? —, pensava eu.

— Mamãe, e se tudo fosse diferente? — falou aproximando-se dela.
— Sobre o que você está falando, filha? — com os olhos na revista, se quer observara o questionamento da menina sabida.
— O mundo seria melhor se fosse diferente, não seria? — insistiu a pequena.
— Seria, querida, seria.

A garotinha desdenhada com a resposta da mãe voltou a rabiscar. Enquanto eu agradecia silenciosamente a reflexão trazida numa bandeja.

E se tudo fosse diferente? Lembrei-me de Mafalda, a menina questionadora que se preocupava com a humanidade e vivia questionando o mundo à sua volta. Ah, que bela herança teríamos se de fato ela existisse…

“E se” é transformador: e se o país em que vivemos tivesse ética. E se as coisas que indagamos como certo e errado fosse substituído por um raciocínio menos dogmático. E se a mídia desse menos ibope para tragédia. E se não houvesse corrupção. E se não houvesse mais lavagem de dinheiro nos cofres públicos e privados. E se as coisas fossem diferente mesmo, se as pessoas tivessem mais respeito umas com as outras, se não achássemos tanta graça da desgraça alheia, se fôssemos menos pobre de espírito e mais rico em se colocar no lugar do outro. E se.

E se tudo fosse diferente deduzo que o futuro não estaria tão comprometido.

Fiquei com vontade de dizer isso aquela garota. Provavelmente a mãe dela iria me encarar de uma forma mais danosa. Iria me julgar como mais um religioso que espera a volta de Jesus, ou que sou mais um entre tantos que está desmotivado com o futuro desse país.

— Mamãe, quando sairmos daqui, compra para mim o livro do Antônio?
— Que Antônio, menina?
— Aquele que tem um menininho na capa que parece um príncipe.
— Ah… não é Antônio, filha, é Antoine de Saint-Exupéry.

Sai do consultório médico mais feliz do que nunca. A Mafalda existe!

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