Empática solidão

Há quem deseja manter a distância o sofrimento, a dor, a tristeza, as lágrimas e estão no seu direito. Em tempos tão exibicionistas de sorrisos e alegrias fajutas, quem tem tempo para solidão? Solidão que nada. Deixa a danada para outra hora.

E por falar em hora, a gente evita tanto à solidão a ponto de desconhecer a si mesmo – não que devamos cultivar a solidão para justificar a existência –, mas é que ela faz a gente repensar o nosso lugar, faz a gente se movimentar, refletir, se conhecer. Enfim, tenho empatia com a solidão. Porque solidão nada mais é do que inconformismo.

Não somos amigos, mas também não somos inimigos. É uma relação que cultivo para exprimir a alma cansada, pois só quem atravessa os dias na monotonia sabe o quanto é exaustivo o mise-in-sie social.

Olhem ao redor, as pessoas não se importam uma com as outras, não se importam ao gritar no trânsito, não se importam o quanto as palavras têm forças, o quanto eles podem reabrir feridas que não cessaram.

Anda faltando solidão no mundo. Anda faltando angústia, tristeza, e mesmo sabendo que são intensidades diferentes, evitamos para preservar o outro, e nessa condescendência, nos afastamos de nós mesmos. Tô mentindo? Basta que digamos a alguém que não estamos a fim de um happy hour e vão nos dar algum conselho que não vai contribuir com nada. “Sai dessa, garoto, você não têm motivos para cultivar a tristeza.”

As pessoas costumam tratar a solidão como algo que não deve ser vivenciado. Evitam-na a todo afinco como se fosse uma doença em estágio terminável – e cá entre nós, algumas parecem mesmo.

A solidão é empática quando a olhamos com mais humor e menos drama. Quando a recebemos como hóspede e não como inquilino de modo que passamos a compreender de onde surge o vazio que nos rouba a madrugada inteira.

Às vezes tratamos a solidão como um ladrão, como se a qualquer momento fosse nos matar e nos roubar, mas o que ela quer mesmo é apenas que olhemos para ela – para si mesmo – e a encaremos.

Solidão não é depressão. Depressão, sim, deve ser avaliada com mais cuidado, com mais discrição. Depressão é a soma de todas as renúncias, todos os traumas e todos os medos. Basta que evitemos a solidão para que apareça de outras formas. Através da raiva, do ódio, do rancor. Solidão é um convite à sensibilidade. Quem evita a solidão evita a si mesmo. 

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