Enem é para elitismo!

Há anos que trabalho no Enem, e de dois anos pra cá, venho observado o método de avaliação, embora avaliar o candidato por competências e habilidades, os elaboradores da prova falham nas perguntas. Eles falham justamente por não compreender quem são a maioria dos candidatos.

Observando os candidatos atentamente na realização da prova, peguei um caderno de questões e abri na primeira página quando me deparei com um texto famoso de Shakespeare, na página seguinte Schopenhauer, Durkheim e novamente Shakespeare com o texto Hamlet — a tragédia mais conhecida. Quando estava por satisfeito leio outra pergunta que era do livro “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche. Encostei-me a cadeira e conclui: o candidato tem que ser mestre para responder essas questões.

Li o livro “Assim falou Zaratustra” e posso dizer que não é qualquer pessoa que o compreende, até mesmo grandes filósofos falam que esse livro é um dos mais sofisticados e complicados de se interpretar. O mais engraçado é que não me lembro de ter sido incentivado a conhecer todos esses autores na escola. Como também não me lembro de ter estudado Apartheid. Conheci todos esses autores, que citei, na faculdade, quando passei a ter mesmo aula de filosofia, sociologia e antropologia.

A nossa escola é horrorosa. Como dizia Paulo Freire: os alunos fingem que aprendem e os professores fingem que ensinam. Para responder as perguntas que ali estavam ou o candidato tinha que conhecer os autores ou teria que ter um pensamento sofisticado para interpretá-los. Além disso, se considerarmos que 90% do conteúdo ministrado em aula são inúteis (esse dado não é achismo: pesquisas de grandes pensadores apontam isso), o que dirá do resto. Até hoje não sei o porquê sei o significado de Androceu e Gineceu, a fórmula de Bhaskara e tantas outras coisas.

É muito triste olhar para escola e ver que tudo mudou, tudo se transformou e ela contínua fragmentada, tornando o saber pobre e niilista. O mais triste de tudo é ouvir professor dizer que a escola prepara o aluno para o vestibular. Onde?? Em que país?? A nossa escola é marcada pelo Regime Militar. A nossa escola prepara o aluno para o nada. Enquanto isso o nosso governo ri dessa decadência e barbárie em pleno século XXI.

A questão não é procurar um culpado, mas, possivelmente, apontar que um garoto que sempre estudou em escola pública para passar no vestibular precisa de um pensamento sofisticado, sendo que a base familiar é fundamental para essa sofisticação. Mas a grande parte dos alunos dentro da escola não tem uma base familiar, não tem diálogo em casa, não tem um pai e uma mãe que estudaram o anarquismo ou filosofia ocidental.

Não sou nem um doutor, mas posso dizer seguramente que o conteúdo ali é para uma base elitista, a qual os pais têm condições de levar os filhos a museus, a conhecer história e, principalmente, apresentar a literatura brasileira, europeia e americana. 

Se um garoto não tiver sorte de nascer num berço de rico: bye, bye, querido, você é só mais um nessa linha de montagem.

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