Eu dentro dele

Andava pelas ruas como se a qualquer momento fosse perder a hora. Ele era assim: se preocupava demasiadamente com as coisas ao seu redor. Tinha medo de que num espanto pueril sua casa desabasse. Era um garoto trágico e também cheio de si. Questionava tudo que passava à sua frente “mas por quê?”, “Será?”. Fora viver nesse frenesi, acreditava que tudo na vida tinha uma justificativa e uma causa — como a lei de Newton, toda ação provoca uma reação.

Aos poucos, ao longo do tempo, foi percebendo que viver assim era desgastante. Acordar, trocar de roupa e se comportar como alguém que tinha muito a dizer lhe parecia inapropriado. Tudo era muito organizado. Seu quarto, seus livros, sua alma. Organizava o que ia fazer no dia seguinte, na semana seguinte de modo que morava num universo paralelo. Poucas vezes olhava para fora. Vivia numa redoma onde só havia ele e ele mesmo.

Por tanto tempo fora ele e sua desajeitada compostura. Sua pouca empatia, que muitas vezes era julgada como um sujeito sem emoção, na verdade era uma forma de preservar a si mesmo — como se o mundo todo estivesse contra ele.

Recuava-se a morar nesse universo em que todas as coisas aconteciam porque tinha pavor do estranhamento. Estranhava-se com uma mulher de mãos dadas com outra, estranhava-se com um homem de cabelos longos, estranhava-se ao ver um homem de saia. Era tão domesticado que deixou de cogitar outras possibilidades.

Seu topete foi diminuindo quando foi convidado para uma festa que acontece todos os anos numa cidadezinha do interior. Ali, diante de um mundaréu de pessoas, deu-se conta que não morava num lugar em que só tinha ele, mas várias particularidades.  

À medida que o tempo passava, foi percebendo que ninguém se importava com seus problemas, com suas neuras, com suas dificuldades; já não estava mais no centro das atenções. Percebeu que as pessoas a sua volta tinham um objetivo maior, que era se divertir e descobrir o enfadonho e ao mesmo tempo encanto que são as relações.

Naquela festa, no meio do nada, percebeu-se inteiro. Via as coisas com os próprios olhos. Notou que as pessoas faziam parte de um mesmo universo que ele, que tinha lá seus lampejos, mas que não era muito diferente dos da maioria. Encantou-se com o novo. Quis mudar de si. Entendeu que não era necessário passar pela metamorfose sendo apenas um. Diante do inusitado, ousou-se a ser quem nunca foi. Chegou à conclusão que não era necessário atravessar os dias citando Proust a fim de parecer inteligente. E que também não era necessário ler Freud para compreender a si mesmo.

Ali, naquele estado de epifania, descobriu a liberdade.

Uma liberdade que eu descobri dentro dele.

Comments

comments

Deixe uma resposta