Feliz aniversário

Tenho observado o seu crescimento. Quem diria que aquele garoto que mal sabia ler e escrever fosse se tornar este que tomou gosto pelas palavras. O tempo te fez muito bem, meu caro. Olhar para aquele que você foi, um garoto desinteressado pela vida, por si mesmo, faz pensar qual o foi o real gatilho para chegar até aqui, com tanta avidez e sede de viver.

Você cresceu muito cedo, teve que dar conta de si mesmo antes que a solidão o engolisse. O lado positivo é que passa a dar reverência àquilo que trouxe até aqui: as perdas, as descobertas, a angústia, o medo, a alegria, o choro — tudo numa redoma muito particular —, o lado negativo, é que desperta a constante curiosidade em pensar no como tudo poderia ter sido diferente.

Mas tenho que admitir: você aprendeu muito rápido que a vida não oferece tantas opções sobre a realidade, por mais que construa uma narrativa muito diferente do que foi ensinada, a essência segue intrínseca.

Se pudesse dar algum conselho, diria para não se cobrar tanto, não exigir tanto de si mesmo, não se punir demasiadamente. Tua autocrítica não vai levar a lugar algum. Aproveite enquanto lhe sobra tempo. Não se leva nada daqui, nem lembranças, nem saudades, nada. O que você tem a perder? Se arrisque. Aproveite e sinta o vento batendo em seu rosto, sinta o chão molhado, sinta o sorvete que toma, sinta a si mesmo. Você tem estado muito distante.

Você ainda não encontrou seu lugar no mundo, e talvez não encontre tão cedo, mas e daí? Qual o sentido de viver se não renovar a maneira como encarar a vida? “O seu lugar no mundo” pode ser em qualquer lugar, desde que não perca a sensibilidade para o que é trivial — porque a trivialidade sempre traz uma nova surpresa.

A vida não é uma linha tênue entre início, meio e fim. Pelo contrário, é a consciência desses estágios que faz dela interessante. Durante o percurso, a graça é encontrar o caminho que faça com que os dias tornam-se menos medíocre, como abrir as páginas de um caderno e rabiscá-las, cantar uma canção, escrever um poema, apreciar uma peça, rir da gota d’água que cai do telhado. Este valor que cultiva tem mais consistência que a materialidade das coisas. A arte de viver, basicamente, é isso.

Vinte e dois anos se passaram e aqui está você, aberto para o que vem à frente. O passado já perdoou, o que posso desejar agora é que seu sorriso continue abraçando muita gente, que suas palavras continuem sinceras, que sua leveza seja sentida e que a vida te dê algumas lições, que delas nasçam à sabedoria para rir de si mesmo.

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