Hora de chamar um adulto

Pensando em escrever um texto bem interessante para a coluna desta revista, lembrei-me de um livro que reli pela 10ª vez nas minhas férias. Têm livros que a gente simplesmente ama e ainda pedem o nosso amor incondicional. (Tô mentindo?) Pois é, quando amo esses livros incondicionalmente os releio várias vezes, e a cada releitura retiro algo novo. É o caso do livro “Divã”, de Martha Medeiros. Como sei que é um livro que não me decepciona, devoro e devoro.

Logo nas primeiras páginas a personagem Mercedes indaga algo perturbador ao seu analista (uma frase que já tinha lido, mas não tinha me chamado tanta atenção anos antes). “Não importa a idade que temos, há sempre um momento em que é preciso chamar um adulto.”

Ao reler isso, comecei a rir sozinho, indaguei: e não é que ela tem razão? Então me lembrei da vez em que fui a uma entrevista de emprego e, ao passar com a psicóloga, disse que eu tinha um amadurecimento que muitas pessoas com quarenta anos nas costas não têm. Na época, consegui o emprego, mas se não o tivesse ia sair daquele lugar todo orgulhoso da mesma maneira. Afinal, me considerava um sábio aos dezenove anos. Ah, mal sabe aquela psicóloga o quanto há de imaturidade em mim. Não só em mim, mas em todos nós. Todos mesmo. Intuo até quem têm 80 anos; vai saber.

Soube que precisava de um adulto semana passada, quando fui cozinhar feijão. Após 20 minutos no fogo, a danada da panela começou a fazer xiiiiiiiiiii… Sabe aquele barulhinho torturante? Então, quando me dei conta, já estava na rua aos berros: “Mãe, socorro, socorro, a panela vai explodir”.

Só não explodiu porque chegou um adulto.

Aposto que você tem algo mais perturbador a dizer do que meu dilema com a panela de pressão. Conte-me: quando você precisou chamar um adulto? Da vez em que você quebrou o carro do seu pai, da vez em que descobriu que sua namorada estava grávida, ou quando você quebrou o vaso de flor importado da Tailândia de sua mãe? Cá entre nós, bateu a vontade de chamar um adulto, não bateu?

A gente sabe quando precisa chamar um adulto, porque ficamos diante da inexperiência e não temos nenhum controle sobre o que está acontecendo. Chamamos um adulto quando não sabemos calcular o grau das consequências. Chamamos um adulto quando não sabemos lidar com o pânico, o pânico de lidar com a panela de pressão, o pânico de descobrir uma gravidez indesejada, o pânico que aflige a espinha dorsal quando se quebra algo valioso. A gente chama um adulto porque viver é um alto risco. A vida é uma verdadeira panela de pressão. Um susto atrás do outro. Você que está aí me lendo, é ou não é?

Mas o susto serve pra isso: crescer. Da próxima vez em que a panela desejar explodir, estarei vacinado. Espero. E, então, chegará a vez de acudir a panela de pressão do meu irmão ou do meu vizinho. Não tem como lutar contra o progresso: chegará a hora de ser adulto, até que apareça outro tipo de panela e então pedir ajuda novamente. Sim, porque sempre haverá outra panela. E sempre será preciso chamar um adulto.

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