Ideal de amor

Eu estava ouvindo a canção A cúmplice, do talentosíssimo Juca Chaves, quando comecei a refletir sobre a letra. A música fala sobre o ideal de mulher que talvez fosse o sonho de Juca: uma mulher diferente das demais, uma mulher cheia de presença e vida.  

“Eu quero uma mulher que seja diferente/ de todas que eu já tive, de todas tão iguais/ Que seja minha amiga, amante, confidente/ A cúmplice de tudo que eu fizer a mais…” A letra não fala sobre a nudez da mulher, mas sobre a nudez dos gestos, que tem mais a dizer do que fetiches e voyeurismo. “Eu quero uma mulher de coloridos modos/ Que morda os lábios sempre que for me abraçar/ No seu falar provoque o silenciar de todos/ E seu silêncio obrigue a me fazer sonhar.” Enquanto a canção me transbordava para a transcendência, fiquei pensando se Juca havia encontrado essa mulher, a formosa mulher diferente das demais. A impressão que se dá é que sim. Penso que tenha alcançado essa proeza, que tenha encontrado esse ideal de amor.

Ideal de amor… engraçado essa expressão me ocorrer com tanta displicência e chegar num momento em que meu coração anda tão arejado… É pedir demais um amor leve, que não torne os dias mais difíceis do que já se é?

Sou ousado como Juca. Lá vem ele com sua prosa fora de hora; mas enfim, se tiver com tempo me acompanhe, por favor, mas aviso: é bobagem. Meu ideal de amor não precisa acontecer agora, mas que não demore muito para que eu não me sinta na fila dos desiludidos. Que não precisa ser o mais lindo, o mais inteligente, o mais sabido de sexo tântrico. Só espero que seja atraente, mas que sua inteligência me desnude mais que o físico.

Eu quero um amor que seja diferente dos demais, que seja sincero consigo mesmo, que fale quando quiser verbalizar e silencie quando não se sentir a vontade para falar. Quero um amor que conte seus segredos, mas não todos, a fim de saber tudo um sobre o outro. Quero um amor que não sinta ciúme para cada pessoa que observo; e se possível, observe comigo, mas deixo claro que isso nem chega a ser uma exigência.

Quero um amor que me beije no meu desespero e no meu lamento me ampare. Que ria do meu jeito de cantar e realize algumas bobagens: como dançar comigo numa segunda-feira, como fazer uma surpresa na terça. Que a cumplicidade seja nossa moradia, mas que excessos sejam deixados de lado. Quero um amor para admirar seus defeitos, como deixar as roupas jogadas no box e o guarda-roupa do avesso.  

Quero um amor que compreenda minhas oscilações de humores, que não me julgue quando estiver com raiva e que não saia da cama quando as palavras não forem verbalizadas. Que não abre a porta do carro tampouco faça serenata…

Viu? Bobagem, eu falo, você que não acredita.

Comments

comments

Deixe uma resposta