Indústria de casamento

Há pouco tempo assisti à entrevista que a atriz Marianna Armellini concedeu ao programa “Prazer, eu sou”, de Regina Volpato, no YouTube. Logo de início Regina perguntou: você acredita que sexo e amor estão sempre juntos? E, para minha surpresa, Marianna respondeu: “Não. Esse é o encontro do casamento, mas que é possível amar sem sexo e transar sem amor, é super possível, é necessário. Acho necessário a mulher transar sem amor pra saber que você pode”.

Marianna, estou contigo. 

Semana que antecede o Dia dos Namorados é prudente dizer o que penso enquanto todos ainda pensam racionalmente, e claro, para preservar minha imagem, já que até o final do texto muitos vão querer jogar soda cáustica e nunca mais ler uma única palavra desse reles mortal. Esta frase vai de encontro ao conservadorismo, mulheres que casam virgens, morrem sem ter um orgasmo e vivem para sempre com seu único e idolatrado marido.

Para início de conversa não me simpatizo com cerimônia de casamento, embora que fui padrinho de dois. Não gosto por causa do sermão do Padre e toda a cultura que enfatiza o casamento como supremacia. Casamento é uma performance. É um ensaio da hipocrisia. É a indústria do consumo, logo, da egolatria de massa. Casamento e aliança no dedo remete a prisão. Eu disse aliança no dedo? Hum… não chegue perto. Logo incita que você não pode desejar, que não pode olhar para os lados, que não pode mais nada. Você está rendido. Você está casado.

Quando ouço o discurso “Eu te recebo por minha esposa e prometo ser fiel, amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida”, bocejo uma, duas três vezes e penso com meus botões: aguardem, queridos, aguardem.

Não querendo ser estraga prazer, mas já sendo: coisa mais ridícula é assistir a cena de uma noiva entrando com seu pai na igreja, e então, o pai entrega a mão dela ao noivo como se fosse um produto. Toma, é teu! E muitas vezes namoram durante anos sem sexo, apenas caricias e beijos — como alguém casa sem conhecer o corpo do outro? —, e tudo isso vai deixando aquela dúvida até chegar ao altar. Ou o mais provável casa sem ao menos se perguntar: é isso mesmo que eu quero ou é o que a sociedade quer?

Não tenho nada contra casamento. O meu ranço é pela cultura que obriga a casar, que condena quem não tem o mínimo de interesse no matrimônio. O meu ranço é com a cultura que doméstica, principalmente as mulheres, com vassoura, panelinha, ferro de passar e boneca de modo a influenciar o que se deve fazer quando adulta.

Casamento, para mim, não precisa ser no papel, não precisa de aliança. Apenas amor e um bom sexo (não todo dia e também não da mesma forma). Casamento, para mim, é ter liberdade de dizer hoje não quero, é ir ao cinema sozinho, é poder olhar para os lados e ainda poder desejar — apenas desejar, veja bem. Porque o desejo alimenta aquilo que já se tem. Já o casamento como manda a cartilha, vão descobrir, diante do fracasso, o que gosta e o que não gosta. E vão tentar mudar aquilo que nasceu pronto, coisa que poderia descobrir quando tinha tempo, antes do “sim” tão importante.

Casamento mesmo, não começa na data de cerimônia, descobre-se no ano seguinte, quando todos forem rendidos pelo tédio.

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