Imagem: Reprodução/ Internet

Inocência pisada

Às vezes sinto falta da pessoa que fui. Sinto falta da ignorância – sinto falta do não entender nada. A verdade é que sinto falta da inocência que tinha. Eu saía pelas ruas e conseguia extrair benevolência de tudo. Ainda carrego parte dessa inocência, mas, agora, é uma inocência consciente. Sempre espero o melhor dos outros, sempre tento extrair uma essência verdadeira. Mas é diferente. O mundo adulto é muito intencional e real. O lúcido era real, mas ingênuo, logo, verdadeiro.

Por que toquei nesse assunto? É que um dia ouvi o relato de um garoto dizendo como foi a sua primeira vez (sendo a primeira vez com uma prostituta). Disse que o pai levou-o até um bordel e mandou escolher uma mulher, e ele, sem entender nada, escolheu uma garota e o pai, sem explicação alguma, disse: “Divirta-se!”. E o ato aconteceu.

Contou ele, com os olhos brilhando, que foi uma experiência inesquecível. Tentou me convencer de que o fato de o pai tê-lo levado ao bordel foi algo benéfico. Mas seus olhos confirmavam o contrário.

Ouço relatos por aí que essa prática é comum em vários países, inclusive no Brasil. Esse ritual serve para autenticar a masculinidade do homem a fim de se tornar o “bam-bam-bam” do lugar em que vive.

Pisar na inocência de uma criança (pode ser um jovem, pode ser um adulto, não faz diferença) só confirma o espírito de porco de uma sociedade que acredita cegamente que, um ritual desses, transforma um homem de verdade. Não há nada mais repugnante do que uma covardia dessas. O que devia ser uma experiência agradável, descobrir o mundo sexual pela espontaneidade das vivências, acaba tornando-se autoafirmação; o que devia acontecer quando houvesse um entusiasmo individual, torna-se frustrante além do que já é a primeira vez.

Seria exagero de minha parte apontar a estatística de estupros? No Brasil, 1 caso de estupro acontece a cada 11 minutos, de acordo com os dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Um caso exemplo, e recente, foi o da garota estuprada por 33 homens. Ao ler a notícia, fiquei estagnado, mas depois, refletindo, entendi de onde nasce a cultura do estupro. Sempre em casa, no berço, na educação familiar em que está enraizado o machismo e a estupidez.

Mas voltado ao caso mencionado no início do texto como exemplo, estimular um jovem, uma criança a se tornar homem com H maiúsculo gera traumas internos. Pisar na inocência de uma criança resulta em frustração. Essa criança, quando adulto, carregará sequelas internas ou se tornará um estúpido sem compaixão. É dessa forma que construímos uma sociedade frustrada, perdida, pavorosa, simplesmente por pisar na inocência, de quem, de fato, um dia também foi inocente.

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