Intoxicado pelo todo

Admiro quem se interessa por tudo — tudo mesmo — desde assuntos bobos até os mais viscerais. Por quem consegue ouvir uma conversa da amiga apaixonada, por quem consegue ler todos os jornais, por quem consegue assistir a todos os filmes em cartazes, por quem se interessa a mandar mensagens pelo Whatsapp até altas horas, por quem tem fôlego para assistir a séries e mais séries. Deixo aqui meu consentimento e minha total admiração.

Mas eu definitivamente não tenho mais interesse em estar atualizado sobre tudo. Minha cota esgotou. Chega. Não consigo. Não quero. Já não me interessa ter uma opinião sobre o novo filme que está ganhando fôlego, já não me interessa ter uma opinião sobre esses bandos políticos corruptos. Agora só quero observar. Apenas observar. O que me deixa muito preocupado, pois à medida que o nosso desinteresse sobre o que acontecem ao redor vai diminuindo, ficamos propensos a ser um completo desinformado. Falo isso porque fiz uma experiência: deixei de assistir a tevê, deixei de ler Folha de São Paulo, Estadão, Veja, Carta Capital, Época, por um mês.

Sabe qual foi o resultado? Não senti falta. Aliás, meus dias passaram a ter mais consistência. Houve certa angústia quando alguém falava sobre as novas delações premiadas, sobre os novos acordos de Trump, enfim, me senti pouco útil. Mas quem pode ser útil ficando de mãos atadas?

Por outro lado, passei a observar as relações. Aquilo que humaniza a todos nós: os nossos medos, as nossas vontades, os nossos erros, as nossas birras, os nossos sonhos, todos esses sentimentos que aparentemente parecem triviais, mas que se apresentam pelo buraco da fechadura, lá, onde o silêncio nunca é corrompido.

Já não tenho mais paciência para egolatria, para Facebook, Instagram, Whatsapp e C&a. Desativei todas as notificações de mensagens, desinstalei o Messenger do celular, sai de grupos do Whatsapp (odeio grupos), me desconectei. Não quero ser refém de conversas tampouco da tecnologia. Só não exclui as redes sociais porque meu trabalho depende disso. No entanto, agora, visualizarei as conversas quando me der na telha. Ninguém mais me atrapalha. Agora é só silêncio e reflexão.

Esse meu desalento é justamente por me sentir engolido por tanta informação desnecessária. Estou me permitindo cobrar menos, falar menos possível, a fim de encontrar paz de espírito. Cuidarei do meu entorno, este que precisa ser constantemente lapidado para que não seja alvo de rupturas.

Passei a ler mais livros, conheci novas pessoas, agreguei contatos e fiz dos meus dias um verdadeiro monumento silencioso. Tenho vivido dias assim: em que não me culpo por não ter lido o jornal, por não ter respondido a uma mensagem, por não ter ido a uma festa.

Desculpe o mau jeito, fugi da estreia porque tem valido muito mais o ingresso.

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