Livros que não servem pra nada

Basta darmos uma volta por algumas livrarias e veremos que os grandes best-sellers de hoje não contribuem com nada, e pude ver de perto essa inversão de valores na Bienal do Livro, que acontece a cada dois anos aqui em São Paulo. Ao conferir toda a programação de autores que estariam lá, fiquei indignado. Fiquei indignado porque desde que estive pela primeira vez na Bienal, em 2008, o público do evento vem se reduzindo. Esse grande evento que tinha como intuito falar com um público heterogêneo, abordar temas relevantes diante de uma sociedade que a cada dia apresenta mais conflitos; no entanto, conferindo todo o evento in loco, só confirmei o que já intuía: que esse evento segmentou o público. Mas depois refleti: a essa altura, que diferença faz?

Já li muitos livros e posso dizer que, em termos de literatura, os novos autores são páreos de vários outros do planeta. Seríamos mais valorizados se não tivéssemos uma linguagem muito simplista. Livro que não diz nada não merece estar à frente de Luis Fernando Veríssimo, Chacal, Adélia Prado, Cristóvão Tezza, Marina Colasanti, Nélida Piñon e tantos outros.

Como leitor, senti falta daqueles autores que marcaram histórias, que contribuíram para uma geração (e segue contribuindo). A Bienal do Livro tornou-se capitalista demais. Se antes o objetivo era vender livros, agora é vender livros que não dizem nada.

Tenho a impressão de que em termos de Brasil, um país que foi classificado inúmeras vezes por ler pouco, agora estamos lendo mais. Por outro lado, o que se leva de um livro de memórias escrito por um adolescente?

As pessoas andam se dedicando apenas aos best-sellers, leem aquilo que é comprovado pelas vendas, e deixam de se aventurar em livros que não estão na lista dos mais vendidos e que podem ser mil vezes melhores. O público jovem quer livros que tenham selo de garantia, e por falta de pesquisar, ou por preguiça, compram aquilo que é vendável.

Me entristeceu ver na Bienal que a maioria dos autores presentes eram Youtubers. Garotos e garotas que muitos nem escritores são, mas que estavam lá por terem títulos best-sellers.

Vender um milhão de livros deve ser uma maravilha, mas não é por aí que se avalia a qualidade de uma obra. De nada adianta estar na lista dos mais vendidos e não estimular a pensar, não refletir sobre os conflitos sociais, não discutir sobre o aborto, não contestar a lei diante de casos de pessoas que, diante de um incidente, ficam reféns de uma cama, e não podem se quer pensar naquilo que lhe é de direito: a escolha de passar pelo procedimento da eutanásia.

Achou estranho misturar os assuntos? Esse é o efeito colateral da literatura que não diz nada. Não ler sobre camadas, não perceber que todas as coisas estão interligadas.

Se um livro não fizer você questionar o que está à sua volta, não ajudar a refletir sobre o que se tornou, não desconstruir a si mesmo a fim de tornar-se uma pessoa melhor e intelectualmente desenvolvida, não mexer com o que leva entranhado, acredite, está lendo um livro que não serve pra nada.

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