Meu fracasso como escritor

Há alguns meses eu estive em São Paulo para uma palestra em que reunia aspirantes escritores e editores. No bate-papo sobre o mercado literário, tivemos dicas de como chegar a uma editora e como, também, abordar grandes autores para pedir que façam um comentário sobre o livro — já que isso aumenta as chances de publicação.

Em algumas horas naquele local, pude colher vários comentários de escritores, e diante de inusitadas perguntas ao editor, eu me prendi no relato de um autor ao dizer que seu livro foi recomendado nada menos por José Saramago, se não me engano em 2009. Uma moça confidenciou também que enviou seu livro para um autor famoso que já nem lembro o nome (mentira. Lembro, sim). Dizia que esse tal autor foi mal-educado. No e-mail, disse que não tinha tempo disponível para fazer um comentário sobre o livro dela. Estou a entender até hoje onde está a falta de educação…

Participo de muitas palestras e posso dizer que abordagem que alguns autores fazem é totalmente errada. Geralmente, o escritor aspirante no calor da emoção cria grande expectativa (e estão no seu direito) e sai encaminhando e-mail para escritores bem-sucedido pedindo-lhes para fazer um comentário sobre. Esquecendo-se que tudo feito às pressas nunca termina bem. Calma, uma coisa por vez.

Depois que um mundaréu de autores manifestou suas opiniões e experiências, chegou a minha vez de abrir a boca (por que eu fiz isso?), a certa altura, perguntei: “Mas não é muita inconveniência pedir a um grande autor ler meu livro e fazer um comentário para ser posto na contracapa? Isso não me parece espontâneo. Porque inconscientemente vou me questionar se ele só fez o comentário por que pedi…” Ele respondeu sorrindo, mas um tanto severo: “Se você quer construir uma carreira cheia de fracassos então não envie seu livro para um grande autor”. 

Por uns três segundos aquele lugar ficou em silêncio. O que está acontecendo comigo — me perguntei — e comecei a chorar internamente. Sai daquele lugar avariado, mas mantendo o posicionamento.

Óbvio que o livro bom nunca vai ser mal-avaliado por um grande escritor, mas, por outro lado, não vejo espontaneidade. Além disso, todo mundo de algum modo tem uma vida atarefada, trabalho, família, pendências; enfim, me coloco no lugar de todos esses autores. Me coloco no lugar porque vejo uma grande inconveniência atrapalhar a vida corrida que eles levam (textos para entregar, contratos para assinar, e-mails para responder) e ainda achar tempo para ler meu livro.

Crio expectativa como outro autor qualquer, mas tenho o bom senso. Sonho com o dia em que um grande autor vá até a livraria e se interessa pelo meu livro por conta própria. Aí, sim, será espontâneo o comentário que fizer. Mas já entendi: sei que é ilusão demais porque vivemos num mundo que só se sobrevive por status. Enviar meu livro para que um grande escritor dê sua opinião?

Prefiro construir uma carreira de fracassos.  

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