Nó na garganta

Quando escrevi a crônica Oceano de Sentimentos – que escolhi para ser o título do meu primeiro livro – não sabia o que de fato eram esses sentimentos oceânicos, até assistir ao filme documentário Human, lançado em 2015, por Yann Arthus-Bertrand, um fotógrafo, jornalista e ambientalista francês, que reuniu relatos de pessoas do mundo todo abordando suas situações de vida.

O documentário, conta entorno de 110 entrevistas com pessoas de vários países, inclusive aqui do Brasil. Entre os assuntos abordados estão o amor, a homossexualidade, a corrupção, o sentindo da vida.

Human apresenta o relato de um homem que matou sua mulher e o filho e que, curiosamente, descobriu o significado do que é amor através de sua sogra, uma mulher que tinha todos os motivos para odiá-lo. Apresenta a história de outro homem que ama incansavelmente três mulheres e, de certa forma, se sente culpado diante da sociedade por condenar a poligamia. Retrata a história de uma mulher que decidiu se divorciar, mas o marido a esfaqueou. Aborda o caso de uma garota que o padrasto a estuprou aos 11 anos de idade. Conta, também, à história da mulher que matou o marido porque apanhava o tempo inteiro.

O filme, por ser financiado pelo Google e GoodPlanet, não tem direitos autorais e está disponibilizado gratuitamente no YouTube, numa versão de três partes.

Durante quatro horas e meia de filme fui invadido por esse oceano de sentimentos, a cada relato sentia dor, compaixão, fúria, pena, esperança, perplexidade, senti tantas coisas que as palavras não me chegam. Não conseguia ficar imóvel na cadeira, eu me arrepiava e chorava ao sentir os relatos das vítimas da Síria, chorava pelos relatos de homens e mulheres que passam fome e que foram discriminados pela sua etnia e condição.

Sentia um nó na garganta em cada depoimento de modo que me fez repensar sobre aquele texto que escrevi há quase dois anos. No texto, com uma visão otimista mas ingênua, indagava sobre o fardo, o vazio, os buracos que carregamos, a dor que provém da ignorância, da facínora política, do maldito narcisismo; enfim, ao final do texto, enfatizava que os buracos servem para encontrar na dor a arte de viver.

O filme aborda o oposto, nos dá um choque sobre a miséria existencial que o mundo todo sofre. O ódio, a raiva, a vingança sedenta entre todas as culturas que não sabem respeitar o outro. O filme mostra o medo, a angústia, a dor através dos olhares e expressões de cada entrevistado. O que dá esperança são as imagens capturadas pelo fotógrafo entre um relato e outro ­– que utilizou da poesia e sensibilidade para mostrar que poderíamos dar sentido à vida ao invés de cultivar a brutalidade.

Parafraseando, Human é um convite para refletirmos sobre esse atentado na França, que deixou 84 mortos e 200 feridos e, também, sobre a tentativa de golpe na Turquia, que deixou outros 265 mortos. Enfim, é um convite para tentar resgatar a humanidade – que se perdeu a essa altura da civilização.

E o mais engraçado de tudo é deixar passar quase dois anos, quando escrevi aquele texto, para finalmente assistir ao filme hoje e concluir que só é possível encontrar a arte de viver quando pensamos coletivamente.

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