No quarto ao lado

Desde criança eu ficava encasquetado quando meus pais brigavam, após uma discussão rotineira, cada um ia para um lado e ficavam semanas sem se falar. Meu pai dormia na cama toda espaçosa e minha mãe ficava no quarto comigo e com meus dois irmãos. Lembro ainda que eu e meu irmão tínhamos que ser o porta-voz dos marmanjos brigados. Era como telefone sem fio. Se minha mãe tinha feito o jantar, e meu pai estava a quilômetros de distância, a informação tinha que chegar até o ouvido dele. Mas se eu lembro bem, ele podia estar ao lado da minha mãe quando ela anunciava que o jantar estava à mesa, e mesmo assim, pedia para gente avisar a ele que era para jantar.

Ah, essas briguinhas de casais…

Com o tempo fui percebendo que era provocação da parte dela, mas meu pai já era sábio e nunca ligava para as pirraças da minha mãe. Certa vez perguntei de infortúnio: “Mãe, por que quando você briga com o papai vai dormir com a gente?”. Ela respondeu aquilo que virou ditado no mundo todo: “Quando você crescer vai entender”.

Eu cresci e entendi mesmo, mas ainda na escola já intuía o que acontecia no universo dos adultos. Uma vez, a professora perguntou em sala de aula qual era o antônimo de mal, e todos responderam que era o bem. Perguntou qual era o antônimo de felicidade, e todos responderam que era tristeza, por fim, perguntou qual era o antônimo de amor e, como era de se esperar, todos disseram que era ódio.

Eu sabia que não era ódio. Eu sempre soube, mas não chegava uma palavra específica para dizer qual era o antônimo de amor. Eu dizia para mim mesmo que não podia ser ódio, mas também não conseguia explicar o porquê não era.

Recordar isso me fez lembrar também das vezes que minha mãe ia dormir com a gente e fico indagando sobre o que devia pensar naquela época. Eu era pequeno demais, devia pensar nos carrinhos que ia brincar no dia seguinte, devia pensar no pedaço de bolo que estava na geladeira, mas queria mesmo é saber o que minha mãe pensava, ali, deitada ao meu lado.

Ela devia imaginar meu pai pedindo desculpas pela grosseria. Ela devia pensar, no quarto ao lado, no momento em que meu pai se levantaria da cama dizendo que nunca mais iria brigar com ela, dizendo que isso não iria acontecer de novo. Como o que minha mãe pensava não se concretizou, estão divorciados até hoje. O engraçado é que quando chegava próximo ao Natal e Ano Novo, parecia que nada tinha acontecido. Como se todas as mágoas estivessem evaporadas e todas as lembranças ruins nunca tivesse existido. Seria hipocrisia camuflar nesta época do ano o que levamos dentro?

No entanto, eu sempre soube que o ódio não era o antônimo de amor porque odiar alguém predispõe amá-la muito, odiar, é ao mesmo tempo amar. Qual a palavra certa? Se pudesse retroceder na sala de aula, eu diria: professora, o contrário de amor não é o ódio, para odiar alguém é preciso que essa pessoa exista. Quem odeia no fundo ama.

O contrário de amor, professora, é a indiferença.

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