Nós aos olhos dos outros

Eu estava só observando. “Meus filhos são muitos rebeldes. A única coisa que eles fazem é gritar, dormir, comer e ainda me faz de empregada”. Foram algumas das frases que consegue guardar em meio aquela discussão familiar. Quando olharam para mim e perguntaram o que achava a respeito. Respondi: é fase, passei por isso também. Nisso uma senhora que não conhecia, perguntou: “Ele é sempre assim…”. (Assim como, minha filha?) Então disse ela: “Assim… tão… tão tranquilo?”. O mesmo aconteceu recentemente numa roda entre amigos, perguntaram se sou sempre calmo, sereno, pacato, enfim, ganhei o rótulo de anjo (nem acredito em anjos). O fato é que eu sempre ouço a mesma história e num tom pejorativo me qualificam.

Geralmente, fazemos isso com todos, uns elogiamos, outros desprezamos. “Não gosto daquela garota metida arrogante.” “Olha aquele moleque metido a rico.” Aos olhos dos outros, quando correspondemos às expectativas deles somos uns santos. Experimente contrariar. O castelo que construíram sobre nós torna-se mal-assombrado. 

Nós aos olhos dos outros somos sempre pego de surpresa. Sabemos que não temos o dom de agradar a todos e muitas vezes julgamos algumas pessoas sem conhecê-las. Quem nunca? Mas depois que conhecemos pode ser que mudamos de opinião ou mantemos o que tinha estabelecido.

Basta que fiquemos quietos por um tempo para que as especulações nasçam. “Por que será que ele está assim?, será que brigou com alguém?” Quando não falamos, o corpo fala, as nossas expressões entregam o recado. Mas nem sempre é porque brigou com a namorada, com o marido, pode ser simplesmente a preocupação com as contas no fim do mês, pode ser uma dor inconfessa ou nada — nada também pode ser um bom motivo —, aliás, não somos obrigados a corresponder à expectativa de ninguém.

Não sou sempre o mesmo aos olhos dos outros. Não sou sempre calmo, tranquilo, sossegado. Não fico citando poesia o tempo todo, viajando na maionese dentro das palavras, tomando chá e fumando um charuto numa poltrona marrom. Sou um ser humano como qualquer outro, que têm dias que não está a fim para o mise-in-sie social. Que se irrita. Que fala besteiras. Que fala palavrão. Não tenho o hábito de gritar com frequência, uso o bom humor sempre, mas nem por isso deixo de ser demônio em algumas ocasiões.

A verdade, é que aos olhos dos outros, a gente nunca é aquilo que se espera.

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