Nos bastidores da vida

Tenho questionado muito as redes sociais, especificamente o Facebook onde estou mais presente, e fico indignado com a quantidade de opiniões diversas que surgem a partir de um acontecimento. Abra uma Fanpage de notícias e vá direto aos comentários, é ou não é de perder a esperança por um mundo mais elegante e sofisticado? Como se não bastasse os comentários estapafúrdios, há quem poste selfie com amigos numa pizzaria, num barzinho, num restaurante. Uma foto legítima, eu sei.

O Facebook tornou-se o nosso analista para o qual expomos quem somos, o que fazemos, o que pensamos, tudo num grau muito superficial. Diga-se de passagem, o Facebook é uma falácia — e uma das mais conceituadas —, pois se tornou “verdadeira” num ponto tenebroso. O que me espanta é que os comentários jorrados permanecem apenas ali, tem meia hora de repercussão, um ticado de fama, mas depois voltam para estaca zero. Você é só mais um bobo que acredita que estão prestando atenção no que está dizendo, quando na verdade, aquele comentário só dá engajamento para a publicação. Sinto em lhe dizer: você é invisível, assim como esse texto. Mas acredite: meu ego não se sente ofendido, aliás, compartilha com essa ideia de que somos todos, absolutamente todos, invisíveis.

Diante disso, me responda: quem é você quando todos estão olhando?

É comum incorporar um papel a ser interpretado, caso contrário o nosso lado animalesco daria as caras. Certa “adaptação” de nós mesmos serve para manter o equilíbrio da solenidade. Mas sempre? Eu sei que ninguém abre a porta de casa aos prantos — a menos que tenha um motivo catastrófico e certo de quem está do outro lado.

Entretanto, pense numa roda de conversa entre amigos, não é curioso rir enquanto por dentro tem algo lhe incomodando? Não é curioso estampar no rosto “de que tem a vida que pediu a Deus” enquanto por dentro você sente o oposto? Seja sincero, aposto que já lhe aconteceu algo semelhante.

Agora me diga: quem é você quando ninguém está olhando? 

O que pouco se discute é sobre essa “felicidade” que outorgamos diariamente. Quando na verdade felicidade é o oposto. Felicidade é sinônimo de silêncio. É um momento capturado, um sentimento que invade sem data e hora marcada. Não são as curtidas que fazem sua vida mais interessante, tampouco as selfies e o exibicionismo.

Se me permite o pitaco, é nos bastidores da vida que mora o crucial. É atrás do palco que a gente amadurece. É lá que você se preocupa, que você chora, que você descobre a por que veio. É na área vedada ao público que você erra, aprende, perdoa, sofre, cresce. É no camarim que você se espanta com a passagem do tempo, que você percebe as rugas, que vê os primeiros fios brancos dando vida. É na área oculta dos espectadores que você dá importância a uma ligação, que você agradece pelo sim e logo adiante pelo não. É com as cortinas fechadas que você sente um frio na barriga, que você sente um arrepio e dá o primeiro suspiro.

Obviamente que subir ao palco, rir com os amigos, tirar selfies, vale a pena. Holofotes e aplausos têm seu valor — mas é encenação. Bom mesmo é estar por trás das cortinas, ali, onde a vida realmente acontece.

Comments

comments