O apego corrói a alma

Quando volto da faculdade eu sempre pego o mesmo ônibus. Tenho o hábito de sentar no último banco, por ter mais espaço, por ficar escondido atrás de uma grade (se chama grade aquele treco que serve para proteger as pessoas de não cair escada abaixo?), enfim, tenho a sensação de que ficar ali, escondido, ninguém vai ousar invadir meus pensamentos, o meu silêncio; o meu choro. Outro dia, eu estava ali, sentado, ouvindo nem me lembro o quê, quando me deparei com uma frase escrita abaixo da vidraça. “O apego corrói a alma” – C. Na primeira vez que li a frase fiquei pensando se a pessoa que escreveu não tinha algo mais produtivo a fazer do que ficar rabiscando as paredes dos transportes públicos. Mentira. Não pensei nada disso. Se bem que rabiscos têm seu lado poético. Escrever o nome do amor da sua vida num papel, encher de coraçãozinho, eu te amo, eu te amo.

Ok, eu já entendi, meloso demais.

No entanto, quem escreveu aquela frase devia estar se sentindo melancólico, sentindo-se um tolo por acreditar que o amor transforma a vida. Ou poderia ter escrito aquela frase num dia como qualquer outro, em que nada de diferente estivesse acontecendo, uma frase escrita, assim, superficialmente, na oportunidade que lhe foi concedida.

Mas não há nada de superficial naquela frase. Existe uma verdade escondida por baixo daquelas palavras. Uma verdade que sabemos, mas que de algum modo optamos por não esclarecer.

O apego corrói a alma. Corrói o nosso coração, os nossos pensamentos, os nossos ossos. Corrói tanto a ponto de perder o fôlego. O apego corrói a alma quando não se tem controle sobre o que sente pelo outro. Quando a vontade é de esquecer e a cada tentativa a coisa vai ficando ainda maior. O apego faz a gente chorar por criar expectativas, por não saber o que se passa dentro o outro, por não compreendê-lo — por não se compreender. O apego faz a gente se corroer inteiro quando não há uma condescendência, quando não há reciprocidade.

Ele poderia estar ao seu lado, dormindo junto a ti durante meses, mas uma noite fora da cama você sente como se uma parte de si se perdeu. Vocês podem estar numa roda de conversa entre amigos, eles rirem das brincadeiras jorradas ao léu, mas a forma como ele fala te deixa ofegante, a forma como expressa às palavras te deixa inquieta. Até mesmo quando uma amiga sorri das piadas dele, do jeito dele, você sente um ciúme cauteloso; mas ele está lá, dentro de você, corroendo seu sangue, sua respiração, sua calma.

Realmente, o apego corrói a alma. Mas não se apegar, corrói também.

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