Balde de água cheio

E se eu disser que estou num conflito interno que não consigo resolver? E se eu disser que esta noite foi difícil de pegar no sono, que foi difícil de levantar pela manhã, que até respirar me causou uma inquietação, o que você diria? Talvez me receitaria um antidepressivo ou tentaria me confortar dizendo que logo passa. Mas será que passa mesmo?

Já deve ter acontecido com você também, em meio aos pequenos problemas, sentir o efeito da própria presença. É aquele momento em que estamos prestes a dormir. Dente escovado. Banho tomado. Luz apagada. Até que alguns minutos depois ocorrem o inesperado: uma luz dentro de nós mesmos começa acender. Não raro, viramos à noite sem dormir.

Dias desses aconteceu comigo também. Deitado sobre a cama, flagrei-me pensando no que comeria no almoço, nas contas que tinha para pagar, planejei meu futuro até que senti uma overdose de tanto pensar — nada é tão horrível como pensar demais. Sabendo que não conseguiria dormir, acendi o abajur e comecei a ler A grande arte de ser feliz, do Rubens Alves. E logo nas primeiras páginas me deparei com a crônica Os olhos de Camila, que dizia: “quando um balde está cheio de água, não é possível colocar mais água dentro dele”. Intrigado, coloquei meus ombros pra trás e encostei-me à cabeceira da cama, como se estivesse lendo pela primeira vez algo que merecesse mais atenção.

Rubens Alves é uma das pessoas mais singulares que já conheci, sua desafetação me encanta (falo no presente porque segue entranhado dentro de todos nós). Sobretudo, era um homem intenso que sabia o que era felicidade e não estava disposto a negociar com ninguém.

O balde de água cheio, como indagou no livro, é sobre o homem adulto que passou a vida toda estudando, trabalhando, e, sem recompensa alguma, morre endurecido por não conseguir ver as pequenas coisas que acontecem ao seu redor. Todos os dias o nosso balde enche um pouco, e quanto mais cheio, mais endurecidos ficamos.

No entanto, isso que chamou de “balde de água cheio”, pode ser também todas as nossas lágrimas contidas, todo barulho que carregamos dentro, todos os problemas e não apenas a quantidade de experiência que temos desde criança até quando adulto, mas todo sofrimento que insistimos em cultivar. Até que um dia acordamos esgotados, incapazes de ver a graça da coisa. Pode parecer óbvio, mas a nossa falta de ânimo nasce por causa da exaustão, e não por causa da vida agitada que levamos todos, mas, sim, pela incapacidade de enxergar. O balde quando cheio impede de vermos à vida. Os nossos olhos veem às coisas, mas não os detalhes.

Por outro lado, o nosso balde fica cheio, também, por falta de introspecção. Acreditamos que ter o carro do ano é mais importante que estar bem consigo mesmo. Não pensamos que ao consumir enchemos cada vez mais o nosso balde, e com o balde cheio, gera a insatisfação, e compramos novamente numa busca frenética de felicidade — que viagem.

“Que a arte nos aponte uma resposta/ mesmo que ela não saiba/ e que ninguém a tente complicar/ porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer…” Lembra-se da música? Osvaldo Montenegro em meio aqueles versos disse também que não é preciso mais do que uma simples alegria pra fazer aquietar o espírito. Os sábios têm dessas coisas, de se esvaziar para entender o todo. A nossa crise existencial passa. Ela sempre passa. Consumir arte e devolver arte talvez seja o caminho. Nada como uma dose de poesia para poder esvaziar o nosso balde.

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