O chato

Toda família tem um. Impossível não ter. E tenho certeza que fui o abençoado pela chatice. Quem me vê de vez em nunca não percebe, mas sou mais chato do que muitos ranzinzas por aí. É provável que em meu DNA tenha algum hormônio intitulado pela impertinência.

Peça para eu ir ao supermercado e verá minha fúria quando voltar. Com uma lista então, acredite, você é uma mulher morta. Cebola, nabo, tomate, berinjela, não é pra mim. E quando tenho que saber escolher bem as frutas, as batatas, os legumes; respiro uma, duas, três vezes e minha expressão diz o recado.

Peça para pagar uma conta no banco, com uma fila enorme, e conhecerá o meu lado maligno. Trânsito então me deixa com uma dor de cabeça insuportável e quando chego a casa mal consigo conversar. Então, por favor, silêncio.

Quer me ver furioso é acordar antes das 10 no fim de semana. Querida, o sono é meu mantra, é o único lugar em que não penso, em que não me preocupo, e detalhe: é o único lugar em que me sinto seguro. Portanto, respeite-o.

Convide-me para uma festa de criança e verá faísca saindo pelos meus olhos. Até mesmo festa de adulto — festa é para pessoas que precisam agarra-se ao mundo social a fim de dar sentido à existência. Sinto e existo sozinho. Ok; volto atrás sobre festas, porque tomar uma cerveja de vez em quando cai bem. Só de vez enquanto, que deixem registrado.

Quer me irritar é interromper quando estou lendo, quando estou falando, quando estou assistindo a um filme. Quer sentir meu suspiro sinuoso é convidar para ir ao shopping. Odeio shopping, odeio compras, odeio lojas. Cinema, por exemplo, gosto, mas não devia estar dentro do shopping.

Quer que eu dê pitaco sobre qualquer coisa que seja? Então esteja preparado para uma longa aula teórica, pois vou pegar os grandes filósofos e justificar usando o conceito de cada um. Rousseau, Foucault, Nietzsche e Marx são os meus melhores amigos.

Eu ainda não disse que sou teórico, ou disse? Se já disse, saiba que me repito várias vezes, e é bom que saiba que algumas vezes sou prático. E não queira entender minha confusão porque também não admito que invadam minha forma de ser. E não me peça para citar alguns autores que amo, pois vai levar muito tempo e evito falar ao máximo — sou até que bonzinho opor-lhe das minhas conversas sobre livros e demais coisas que compõe este ser tão severo.

Sendo “severo”, a primeira palavra do meu dicionário. E se quiser conviver comigo seja sempre muito educado. Por favor, por gentileza, obrigado, são palavras que estão em desuso, mas preso pela elegância. Estamos combinados?

Credo. Descobri com esse simples texto que amor nenhum vai me dar ordens.

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2 comentários em “O chato

  1. Muito bom. Eu tenho uma mania de correlacionar tudo, e esse texto me lembrou a canção “Senhas” de Calcanhoto:

    Eu aguento até os estetas
    Eu não julgo competência
    Eu não ligo pra etiqueta
    Eu aplaudo rebeldias
    Eu respeito tiranias
    E compreendo piedades
    Eu não condeno mentiras
    Eu não condeno vaidades

    O que eu não gosto é do bom gosto
    Eu não gosto de bom senso
    Não, não gosto dos bons modos
    Não gosto

    Abraço querido

    1. Ah, querido amigo, não conhecia a letra, vou ouvir. Mas pelo que já me descreveu, é boa. Aliás, Adriana Calcanhoto é magnifica. Obrigado pelo comentário. Um abraço. 😉

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