O guarda-roupa de cada um

Sabe aquelas pessoas que você encontra nas andanças da vida e se pergunta: uau, como a gente não se conhecia antes? Essa sensação de “caramba, como somos parecidos” tive outro dia ao sair com uma recente amiga. Nos conhecemos no trabalho. Dois minutos juntos e pronto: a gargalhada conta a história. Ela, uma mulher independente. Eu, um jovem dependente. Mas são nessas pequenas discordâncias que a gente se cruza.

Ela me contou que acha o máximo à maternidade, embora algumas vezes tivesse que se policiar. Eu, curioso, perguntei: ora, mas por quê? Ela como psicóloga, disse que mães às vezes são um pouco incisivas (um pouco??, pensava eu em silêncio), então ela usou uma metáfora para exemplificar o que acontece em sua casa. Disse que guarda as roupas dentro do armário de forma que as cores estejam alinhadas e, como mãe, exigia o mesmo dos filhos. Até o dia em que se questionou: “A forma como guardo as minhas roupas é minha forma de ser. Como meus filhos guardam as roupas deles, têm que acompanhar o jeito deles. O que pra mim é uma tremenda bagunça, e é mesmo, pra eles podem estar tudo muito bem organizado”. Sorri com o relato e disse que isso ia tornar um texto.

Aqui estou. Seria maravilhoso se a gente respeitasse aquilo que não é de nossa conivência… nem estou falando mais do guarda-roupa de casa, mas, sim, do guarda-roupa de cada um. O guarda-roupa interno que nos acompanham desde a infância.

Hábitos, costumes, jeitos são particularidades que não deviam ser questionados de forma que coloquemos o outro num patamar inferior. Essa sobreposição que colocamos como tem que ser, como tem que se vestir, como tem que se comportar vai de encontro ao nosso epicentro, lá, onde fica a nossa arrogância e empáfia.

O guarda-roupa de cada um devia ser respeitado como sua identidade. Se enxergarmos o guarda-roupa do lado do avesso, essa é a nossa visão, não a visão do outro. Quem vai decretar que o avesso é o errado? São essas pequenas atitudes como decretar como tem que ser o guarda-roupa, o caderno, a mochila, é que vai alimentando a intolerância. Por que o guarda-roupa do outro tem que estar como seu guarda-roupa é?

Seu namorado deixa as roupas sobre a cama, pede para que guarde as roupas no seu canto. Sua mãe guarda e arruma seu armário toda semana, pegue as roupas da mão dela e deixe do seu jeito. Não parece, mas como guardamos as nossas roupas e como são as nossas exigências, revelam mais a nossa prepotência que o silêncio do guarda-roupa do avesso.

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