O sujeito perto de quem fala

Encasqueto quando minha mãe pede algo usando os pronomes demonstrativos de forma errada. “Filho, pega esta caneta pra mim?” “Leandro, não é nesta bolsa que está o cartão de crédito!” Ela fica brava quando corrijo o que está dizendo.

Geralmente, fico confuso porque não faltei à aula de português, mas quando minha mãe usa o pronome “este” no lugar do “esse”, logo me vem à cabeça a professora dizendo: “Este brinquedo é meu, esse brinquedo é seu e aquele brinquedo é dela”.

Lembra-se das regrinhas de português que diz que os pronomes demonstrativos: ‘este’, ‘esta’, ‘isto’ são usados quando os objetos ou sujeitos estão próximos da pessoa que fala; enquanto os pronomes ‘esse’, ‘essa’, ‘isso’ são usados para objetos ou sujeitos que estão próximos da pessoa com que se fala?

Por que minha mãe insiste em fazer o contrário? Será que é provocação? “Pega esta caneta pra mim”, sempre digo para ela: “Mãe, o correto é “essa” caneta, a caneta está próxima de mim e não de você”. Ela olha e me responde: “Você entendeu não entendeu?”.

Tem casos em que os objetos estão próximos dela mesmo. Outro dia fez uma tempestade em copo d’água quando eu disse que não estava achando a droga do dinheiro. No momento em que ela começou a falar: “O dinheiro está nesta…” hum… Meu cérebro já fez um bloqueio instantâneo.

Comentei o equívoco com minha professora. Perguntei para ela o motivo de mãe ficar brava quando não consigo encontrar o objeto que ela quer, sabe o que minha professora respondeu? Palavras dela: “Leandro, isso acontece porque geralmente o objeto está próximo dela, e como está próximo dela, acha que está próximo de você também”. Pois é, por incrível que parece essa coisa do pronome demonstrativo tem a ver, sim, com essa neurose toda.

Quer outro exemplo para certificar que não estou mentindo? Dia desses, minha mãe chegou em casa falando de Marina. Marina contou os problemas que têm com os pais. Marina comprou um carro. E então, sem jeito, perguntei: “Mãe, quem é Marina?”. Ela me olhou de soslaio e respondeu: “Nossa, como você não se lembra da Marina? Marina é aquela moça que foi casada com o fulano de tal e se divorciou há pouco tempo”. Eu respondo que não me lembro de Marina e ela insiste: “Aquela que a gente viu na rua outro dia”.

Daí me lembro da gramática: se usa o pronome demonstrativo na 3ª pessoa (aquele, aquela, aquilo) quando os objetos ou sujeitos estão distantes de quem fala e de quem ouve. Dessa vez minha mãe acertou. Marina, aquela moça a qual se refere, está distante de mim e dela. Marina está tão distante que nem me lembrei de sua existência. E lá vai eu explicar para minha amada mãe o motivo de não me lembrar de Marina. “É que o pronome demonstrativo na 3ª pessoa…”

Ela acredita que faço isso de pirraça. Mas juro que não é.

No entanto, todo neurótico e petulante tem seu dia de cair do cavalo. Cai semana passada quando fui perguntar a ela sobre uma moça que estudou comigo no ensino médio: “Mãe, aquela moça que ficávamos andando para um lado e para outro na escola, lembra?”. Para dar o troco ela respondeu: “Não lembro, acho que o sujeito está distante de mim”.

Não retruquei. Mas entendi o recado.

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