O tempo e a vida

Toda vez que chega ao final de dezembro fico procurando na internet vídeos publicitários de grandes marcas a fim de tirar algo para refletirmos na coluna. Desta vez, quem me surpreendeu foi a mensagem do banco Itaú. A marca lançou dois vídeos e ambos têm a mesma finalidade: o tempo. Em um dos vídeos quem interpreta é a grande e ilustríssima Fernanda Montenegro — sua voz é inconfundível. No outro, mostra uma avó escrevendo uma carta para seus netos (pelo laptop), agradecendo-os pela paciência em ensiná-la a curtir, compartilhar e adicionar amigos nas redes sociais. Em retribuição, a vovó muito sábia, ensina algo mais importante que o mundo digital, ela ensina a conectar dois aparelhos muito mais complicados que qualquer computador: o tempo e a vida.

A certa altura do vídeo, indaga: “A primeira coisa que você precisa saber sobre a conexão do tempo com a vida é: a vida é muito mais importante que o tempo”. Com uma voz de choro (chorei junto), ela continuou: “Quando você tiver a minha idade, vai ver que a gente não lembra tanto assim do tempo que passou, mas lembra muito bem de cada momento importante que a gente viveu, não importa quanto tempo tenha passado”. Ao final do vídeo sugere que guarde bem na memória, e na memória do computador, a mensagem: “O tempo vale o que a gente faz com ele, e a coisa mais importante da vida não são as horas nem os minutos, são os momentos que a gente vive juntos”. 

O tempo e a vida. Isso ficou na minha cabeça.

De uns tempos pra cá, a vida mudou tanto para mim que não me chegam palavras para descrever. Acho que a maturidade traz com ela um sabor de vida, que não é palpável tampouco é abstrato. No sentido mais absoluto da existência, tive que desconstruir aquele que eu era a fim de encontrar quem sou hoje. Optei por desapegar de toda cultura que me trouxe até aqui. Como deixar de ir à igreja porque mamãe queria que fosse. Deixar de rezar o pai-nosso porque essa ideologia já não me servia mais. Deixei de considerar a opinião alheia a fim de formar a minha. Deixei de seguir o que solenidade mandava para encontrar paz de espírito — mas para encontrar essa paz tive inúmeras vezes ruminar até o mais profundo de mim mesmo para me reerguer.

A gente passa muito tempo na vida procurando entender quem somos, como li outro dia num texto de uma escritora que mais admiro, “mas será que ainda somos? Talvez devêssemos trocar o tempo desse verbo: quem éramos”.

Aquele que eu era ainda segue na memória, mas não faz sentido nenhum colocá-lo no centro das atenções. Algum tempo atrás, o que eu mais queria era que os maus momentos que tive ficassem na memória a fim de servir de apoio para os erros que vou cometer adiante. Mas o que mais desejo, agora, é que essa conexão que tenho com o tempo e a vida sejam sempre renovadas. Para que eu entenda seu valor.

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