Implícitos de uma conversa

Chegamos ao bar por volta da dez da noite, então ela me lançou o olhar de quem queria dizer: “você é o único homem da mesa, não vai chamar o garçom?” —, não disse nada, mas era visível em seu olhar a irritação, a vontade de dizer que o-homem-ainda-tem-que-fazer-o-pedido. Fiz o que melhor sei fazer: fingi que nada estava acontecendo. Então ela se levantou da mesa e foi buscar a bebida e os copos, já que por irônica o garçom também não a atendia. Quando voltou a mesa, ficou me encarando com ímpeto de “você não se toca?”. E eu, claro, não me tocava, fingia que não me tocava, e ria por dentro.

Demorou uns três minutos para colocar a cerveja no copo de todos, enquanto me fitava: “mais essa, você também não vai nos servir?” —, não disse nada, mas seu olhar não mentia, queria me fuzilar, pois eu estava a envergonhando diante de todos ao seu redor.

Estávamos em cinco. Então começamos a falar sobre livros —, ora, sobre livros, porque havia um escritor à mesa, porque havia um intelectual com avidez por palavras de grandes eloquências. Me ocorreu, por um segundo, o que estariam conversando caso eu não estivesse ali. Seria sobre o homem másculo que estava próximo à porta, seria sobre a nova coleção de maquiagem ou seria sobre a roupa suja que ficou de lavar assim que chegasse em casa?

Então ela colocou cerveja no meu copo no que indagou pela primeira vez: “Deite um pouco o copo para a espuma não cair”. Sou obediente, fiz o que pediu, mas de certo modo, em outras palavras, estava dizendo que não sou experiente com cerveja — tudo uma pequena intuição, é claro.

Depois falamos sobre filmes, séries e vídeos no YouTube, imediatamente disse que gostava de uma série e errei o seu nome, me corrigiu, tentando me desconcertar, tentando mostrar que preciso falar corretamente —, e me diminuir, claro, ela não perderia a oportunidade.

Naquele meio tempo, enquanto conversavam sobre idiotices corriqueiras, comecei a mexer no celular numa tentativa de fugir da conversa, já que discordava de tudo que estavam dizendo, já que não fazia mais sentido nenhum estar ali. Mas fui paciente, queria saber até onde aquilo ia chegar.

Num dado momento a cerveja acabou e então me fitou novamente: sua vez. Fui — deixar de ir era provocação demais. Peguei a cerveja, coloquei sobre a mesa, então me fitou novamente: nos sirva, por favor. Sorri com um canto da boca e coloquei cerveja no copo de todos, no dela, é claro, sairia algo: “Cuidado, cuidado, vai devagar, senão vai derramar tudo”. A espuma subiu tão de pressa que caiu na mesa, no chão, e claro, na sua roupa — foi de propósito.

Na hora de ir embora queria que pagasse toda a conta, ora, ora, mais essa. “Vai pagar a conta, Leandro?” Pra provocar, respondi: “Só se você lavar a louça”.

Não pediu para colocar uns dos braços atrás da cadeira porque era casada. E também não pediu para abrir a porta do carro porque vim embora a pé.  

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