Outra civilização

Não foi uma pessoa, tampouco duas. Foram cinco pessoas que chegaram até a mim dizendo que o sonho de consumo neste exato momento é estar à beira mar contemplando a natureza, ouvindo o som das águas, sem carro, sem celular; enfim, sem tecnologia. O que leva alguém desejar isso? O stress.

A correria do dia a dia está cada vez mais sugando a energia dos transeuntes da vida urbana. Quer ver alguém estressado é ficar mais de duas horas no trânsito, numa fila dentro do banco, num tédio que ninguém mais consegue suportar. A facilitação do acesso às tecnologias trouxe com ela unificação do imediatismo. Ninguém mais suporta ficar esperando a internet funcionar, ninguém mais aguenta esperar o filme rodar.

Quer ver alguém fazer as malas? É só apresentar os noticiários do que vêm acontecendo com este país. O rombo nos cofres públicos, alta dos juros atingindo 14,25% ao ano, a taxa de desemprego superando os últimos 6 anos; ninguém mais aguenta ver desgraça. Fazer as malas soa como uma ótima alternativa por diversos motivos, e um deles é pela onda moralista que as redes sociais hoje em dia vêm despejando. Generalizando, ninguém mais pensa direito, ninguém mais consegue desapegar das suas crenças para compreender outra. Por um lado, ficamos indignados com tudo que está acontecendo, por outro, a hipocrisia reina.

Risco a dizer que daqui pra frente à vida em sociedade cada vez mais ficará comprometida. Arrastões em todas as esferas do país, pessoas morrendo dentro dos hospitais por falta de medicamentos, políticos que buscam “melhorias” coletivas para sociedade — quando na verdade a busca mesmo é pelo próprio fascínio em que tudo se torna uma disputa de poder. Essa é a era do oportunismo camuflado de bondade coletiva.

Ouço falar muito da abolição da escravatura no Brasil, mas pelos rumos que estamos tomando, desafio a dizer que estamos, sim, numa escravidão disfarçada de modernidade. Pagamos impostos dignamente e ainda vemos miséria colossal, falta de saneamento básico, falta de remédios em hospitais, falta d’água e ainda governante recebendo prêmio da gestão hídrica. É de perder a esperança de futuro promissor nesse país de depravação.

Por fim, se não tomarmos providências sobre tudo que está acontecendo ao nosso redor, e se não intervirmos numa revolução política, cada vez mais veremos pessoas fazendo as malas e sumindo para uma casa à beira mar onde podem contemplar as virtudes da natureza. Porque, pelo visto, a civilização de lá anda melhor que aqui.

Comments

comments

Deixe uma resposta