Para sempre Clarice Lispector

Ganhei o livro “Aprendendo a viver”, de Clarice Lispector, há um bom tempo de uma amiga e só consegue finalizar a leitura dias atrás. O livro reúne crônicas e poemas de uma mulher que não sabia conter suas emoções. Clarice Lispector foi e continuará sendo eterna porque suas palavras eram verossímeis. Tinha um olhar poético sobre a vida – sobre sua própria vida, inclusive.

Em um determinado ponto do livro, na crônica “Um instante Fugaz”, retratou o encontro que teve com um homem que conhecera numa rua qualquer (aqueles encontros ocasionais em que se olha para uma pessoa e parece que a conhece há décadas) e como ficou encantada e não sabia seu nome colocou de John. No texto Clarice conversa com John. No último parágrafo, indaga: “John, eu li que a angústia é a vertigem da liberdade. No entanto, eu estou tendo esta vertigem, mas sem angústia. Como é que se explica? Eu estou séria, mas por dentro estou sorrindo. Não sei de quê. É que viver me faz sorrir. É um sorriso misterioso. Vem de florestas interiores, de lagos e açudes e montanhas e céu. Sou toda misteriosa, John. Você é mais claro que eu. Você é um riso, um olhar de surpresa. Até sempre.”

Clarice Lispector tinha a definição exata do que sentira naquele encontro e sabia definir suas emoções com muita distinção. Não atribuía um sorriso recebido apenas com gentileza, educação e cortesia, definiu, sim, o sorriso como presente sem data marcada, sem remetente, apenas pegou o sorriso oferecido pelo homem desconhecido como uma criança que ao ganhar uma boneca sai pulando de alegria.

E então me lembrei de quando saímos à rua e não olhamos para os lados, e quando alguém repara em nós, quando há uma conexão entre as almas escolhidas para estar, ali, naquele instante, esbravejamos com fúria e asco: “O que é, perdeu alguma coisa aqui??”.

Sonho com o dia em que voltaremos a ter leveza. Andamos estressados e violentos demais, as pessoas já não olham mais nos olhos, quase não sorriem, quase não observam, e quando observam é possível perceber uma imensa angústia que anda perseguindo a todos. Talvez essa vertigem de liberdade esteja ligada a ansiedade.

Andamos ou não andamos ansiosos demais?

Como disse o filósofo e teólogo Soren Kierkegaard, que viveu até o século 18, o homem possui sensações: a ansiedade, a liberdade e a possibilidade, o homem tem a capacidade de escolher, e, na possibilidade de escolha, causam sentimento de angústia, isto é, a vertigem de liberdade.

Clarice, eu não sei o que a fez sentir o oposto, mas deixo aqui a homenagem.

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