Pisca-pisca e vaga-lume

Sabe o que mais me dói quando saio à noite? É não ver pisca-pisca nas casas, nos comércios, nas avenidas e ruas. Eu amava o tempo em que tinha pisca-pisca para todos os lados. Em alguns lugares as luzinhas chegam por volta do dia 1º de dezembro. Mas se me lembro bem, na minha infância, os piscas-piscas chegavam bem antes. Lembro que as cores despertavam em mim uma sensação que vislumbro até hoje (aquela sensação de alegria que se perdeu nessa correria dos dias).

Tinha também vaga-lume, lembro que brincava de caçar vaga-lume com alguns amiguinhos, engraçado, até os verdinhos sumiram. Ou estou sendo muito provinciano?

Ah, que saudade de quando eu subia na janela e via a cidade cheia de cores. Quando via as casas com tanta magia. Eu tinha a sensação de que as pessoas deixavam as luzes apagadas durante o ano todo para finalmente descarregar a energia logo na terceira semana de novembro, e assim, deixar o fugaz ilustrar as relações, o ambiente.

Lembro quando as pessoas se divertiam mais; agora, estão todas plugadas no piloto automático. Conversar com amigos, telefonar para um amigo, um parente, parece à morte. Whatsapp, Facebook e C&A deram a possibilidade estarmos conectados com o mundo — entendo, tempos modernos —, por outro lado, a tecnologia fez a desconexão com os outros que levamos entranhado e com aqueles que estão entorno de nós. A tal correria dos dias deixou todos exaustos para papo-furado, cartão de Natal, piscas-piscas e conversas na varanda. A tendência do século é ser workaholic. Cada um no seu modo frenético, evitando pensar, evitando sentir, evitando viver. 

A impressão que tenho é de estar num lugar em que tudo está desligado, sono profundo. Entendo. Este ano aconteceram tantas coisas, tantas tragédias que você chega a pensar: como a essa altura do campeonato pode acontece isso? Impeachment, corrupção, desastres, epidemias, guerras, atentados, crise econômica, crise hídrica, crise política, manifestações, eleições, discursos de ódio, brigas, mortes, violência, perdas, sonhos que foram adiados, taxa altíssima de desemprego, ufa, alguém aí me alcança um copo ’d água?

Uma coisa vai ligando outra, já percebeu? É feito roda-gigante. Somos bilhões e mesmo assim estamos todos conectados de alguma forma. O que acontece do outro lado do mundo reflete aqui onde estou, aí onde você está, reflete também no seu vizinho.

Faltam quase um mês para o Natal e as pessoas não se deram conta que é tempo de tirar o pé do acelerador. Tudo que tinha de pior já aconteceu. Mas não. Elas insistem em trabalhar, trabalhar e assim permanecem desconectadas com o magico. Mas, na verdade, não queria que minha fixa caísse de que tudo acabou. Os piscas-piscas acabaram, os vaga-lumes voaram, os pássaros não cantaram, as aves não brotaram e também decidimos não acender.

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