Por uma vida mais simples

“Uma vida sem nenhum estresse é impossível, mas para um nível mínimo de estresse é preciso deixar de dramatizar, deixar de se sentir perseguido pelos outros, assumir suas responsabilidades”, diz Martha Medeiros que em breve lança o livro Um lugar na janela, parte 2

 

Com mais de 25 livros publicados entre eles o best-seller Trem-bala (L&PM), Doidas e Santas (L&PM), Feliz por nada (L&PM) e o romance Divã publicado pela editora Objetiva, que também virou peça de teatro, minissérie e filme com a atriz Lília Cabral no papel de protagonista, em entrevista Martha revela que o livro Fora de Mim também poderá se tornar filme. “É possível que o livro Fora de Mim vá para o cinema, um pré-roteiro já existe”. Além de ser dona de uma sensibilidade única, Martha Medeiros também publicou Tudo que eu queria te dizer (Objetiva), adaptado para o teatro e estrelado por Ana Beatriz Nogueira e Emilio Orciollo Netto, como ator do monólogo que reúne as cartas masculinas, e o mais recente livro de crônicas Simples assim (L&PM).

Foto: Leticia Remião
Foto: Leticia Remião

Considerada um dos 100 brasileiros mais influentes de 2010 pela Revista Época, em novembro de 2012 recebeu a comenda da Ordem do Mérito Cultural, no Palácio do Planalto, em Brasília. Em outubro de 2013 recebeu a medalha Hipólito da Costa concedida pela Ordem dos Jornalistas do Brasil, no Rio de Janeiro. Colunista dos jornais Zero Hora e O Globo, e convidada frequentemente a participar dos principais programas de tevê, a gaúcha comenta sobre a simplificação das coisas na parte 2 da vida. “Estar mais perto do fim dá uma abalada, mas traz também a consciência de que adiar é um verbo para se deixar de lado. É preciso extrair o melhor do que temos pra hoje”, diz a escritora.

Questionada a respeito de suas viagens, revela que no livro Um lugar na janela – parte 2 haverá um capitulo sobre sua ida à França. “Pretendo incluir também o relato da viagem à Nova Zelândia, então o livro deve sair mais pro final de 2016. Tentarei publicar algumas fotos desta vez”, comenta.

Formada em Comunicação Social e aclamada por Millôr Fernandes, Caio Fernando Abreu e Lia Luft, Martha Medeiros também publicou livros de poesia como Strip-tease (Brasiliense, 1985), Meia-noite e um quarto (L&PM, 1987), Persona non grata (L&PM, 1991), De cara lavada (L&PM, 1995), Poesia reunida (L&PM, 1999) e Cartas extraviadas e outros poemas (L&PM, 2001).

Vencedora do prêmio Açorianos da Literatura, do seu segundo livro de crônicas, Topless (L&PM, 1997), Martha fala sobre inspiração.Meu trabalho é fruto da observação, da vontade de traduzir sentimentos indizíveis, de colaborar para um entendimento sobre nosso papel no mundo. Isso vem de dentro, não depende tanto de insights,” pondera.

Nesta entrevista, Martha fala sobre política, o futuro como escritora, o imediatismo do mundo moderno, o movimento feminista entre outras coisas. Com muita sutileza e humor fala sobre os benefícios quando se opta por uma vida mais simples.

Leandro Salgentelli: Antes de tudo, quero agradecer por ter aceitado  nos conceder esta entrevista e dizer que sou um GRANDE fã do seu trabalho, seus livros me inspiram muito. Soube que você viajou recentemente, quais são os fatores que você considera na hora de escolher um destino para conhecer? 

Martha Medeiros: Antes de tudo, obrigada a você, Leandro, pelo carinho. Em relação às viagens, eu me deixo levar pelas oportunidades. Em maio, meu namorado precisou ir a Marselha fazer uma simulação de voo (ele é piloto de helicóptero), então resolvi me encontrar com ele. Alugamos uma casa no sul da França (em Cap D´Ail) que serviu de base para circularmos por Cannes, Saint Tropez, Éze, Mônaco – vida duríssima, como se vê. E em agosto pretendo ir à Nova Zelândia visitar minha filha que está morando lá. Então é assim, depende das circunstâncias. Mas quando viajo sozinha, escolho sempre um grande centro (Londres ou Paris, de preferência).

L.S. Esta última viagem estará na segunda parte do livro “Um lugar na janela”, já está prevista a data de lançamento?

M.M: Sim, haverá um capítulo sobre essa viagem ao sul da França, e pretendo incluir também o relato da viagem à Nova Zelândia, então o livro deve sair mais pro final de 2016. Tentarei publicar algumas fotos desta vez.

L.S. Sei que é muito fã de Woody Allen, esse amor incondicional surgiu como? O que Woody tem que lhe cativa?

M.M: Seus filmes tratam sobre questões psicológicas que me interessam muito: o papel do acaso no nosso destino, as dificuldades dos relacionamentos afetivos, como lidamos com a finitude da vida, o quanto a moral guia nossos atos, enfim, são temas sérios, mas todos eles tratados pelo cineasta com um humor inteligente e sofisticado – e nem falei das trilhas sonoras. Nunca se sai de mãos vazias de um filme dele.

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Foto: Leticia Remião

L.S. Certa vez assisti a uma entrevista em que você disse que “a maioria dos nossos problemas provêm da ignorância”, acha e explica melhor?

M.M: Não lembro exatamente em que contexto foi dito isso, mas acredito que estava relacionado à ignorância sobre nós mesmos. Quem lê pouco, quem investe pouco em autoconhecimento, quem não se nutre de arte, quem não procura se informar sobre o que acontece a sua volta, enfim, quem se mantém alienado acaba sofrendo diante da própria fragilidade, não encontra saídas para seus conflitos, acrescenta pouco à sociedade e vive de uma maneira mais restrita. O conhecimento não impede que tenhamos problemas, mas nos ajuda a lidar com eles de uma forma mais produtiva.

L.S. Sabemos que o acesso à internet facilitou o saber raso de todas as coisas. Como é viver numa era em que tudo acontece rapidamente? Como você lida com o imediatismo das coisas?

M.M: Eu acho que podemos ter algum controle sobre as demandas sempre urgentes do dia a dia. Para evitar a adesão a esse frenesi, não é preciso se mudar para uma casa no meio do mato sem wi-fi. Eu não estou no twitter nem no instagram, por exemplo, e não me fazem falta. Mantenho o telefone no modo silencioso quando os sinais de entrada do whatsapp me incomodam. Não deixo celular em cima de mesa de restaurante. Sei que a roda tem girado numa velocidade frenética, ainda mais em se tratando do momento político atual, em que a cada dia temos uma novidade bombástica, mas, ainda assim, podemos impor o nosso próprio ritmo à nossa própria vida. Eu ainda consigo impedir que o looping acelerado me engula. Assumo vários compromissos, mas reservo muito tempo para mim mesma.

L.S. Martha, como é a parte 2 da vida?

M.M: Até aqui, melhor do que a encomenda. Levei um susto quando cheguei perto dos 50, mas o susto passou assim que fiz 51, e agora estou surfando numa onda boníssima, curtindo a vida como nunca. Muitos ganhos: maturidade, leveza, foco. Me permitindo o melhor que existe. Sem culpas, sem dramas, sem frescuras. Claro que tem perdas, o espelho me lembra disso todo dia, mas não dá pra ficar nessa neura de querer ser jovem para sempre. Jovial para sempre, isso sim é possível através do espírito e de uma postura desestressada diante dos acontecimentos. Estar mais perto do fim dá uma abalada, mas traz também a consciência de que adiar é um verbo para se deixar de lado. É preciso extrair o melhor do que temos pra hoje.

L.S. Estamos vivendo um momento político em que chegamos ao extremo. Em que há uma paixão política, uma guerra maniqueísta. Quais suas impressões sobre esse cenário?

M.M: Essa crise ética vem desde sempre, de governos anteriores, mas agora os crimes estão sendo investigados e isso é positivo, tudo está sendo confirmado. Como foi dito recentemente numa das tantas gravações, “não sobra ninguém”. Eu fico arrepiada diante dessa máfia que atrasa o progresso do país, mas temos que passar por este processo doloroso a fim de ter alguma esperança de que a corrupção, lá adiante, retroceda. Triste é ver o nível do debate nas redes: somos uma população de magoados tentando defender o indefensável – não há santos nessa questão, a falta de moralidade está em todos os partidos. E em nosso cotidiano também, já que os políticos não vieram de Júpiter, e sim dessa mesma sociedade em que vivemos. Eles são nossos representantes legítimos. É isso que mais me dói.

L.S. Você tem milhares leitores e entre esses leitores há também escritores iniciantes, que recado você deixa para aquele escritor que está entrando no mercado literário? Tem alguma dica do que não se deve fazer e o que se deve?

M.M: Não há fórmula que possa ser passada adiante, cada um encontra seu próprio caminho na literatura. Eu costumo dizer para o pessoal não ter pressa de fazer sucesso – tem gente querendo virar escritor famoso aos 17 anos, mas Rimbaud só tem um, né?  O importante é estar aberto para amar, sofrer, viajar, acumular um repertório consistente de emoções e vivências para não ficar apenas no mimimi. Vale a pena praticar a escrita diariamente, ter o próprio blog, fazer oficinas literárias, tudo isso eu recomendo, mas recomendo também modéstia e paciência. E dedicar-se a uma profissão. É preciso se sustentar.

L.S. Você espera vivenciar a velhice? Pensa em se aposentar?

M.M: Claro que eu espero vivenciar a velhice, qual seria a alternativa??? (risos). Quanto a me aposentar da literatura, não aposto nisso. Posso vir a deixar de escrever colunas um dia, pois é muito desgastante ter sempre um texto pronto para cumprir os prazos dos jornais, mas não estou pensando nisso agora, e mesmo que venha a acontecer, ao menos na ficção eu continuarei insistindo.

L.S. Uma das coisas que mais se questiona, hoje em dia, para um escritor, é se a inspiração “vem do nada” ou se adquire através do olhar atento sobre as miudezas dos detalhes. E sua inspiração, Martha, vem de onde?

M.M: Acho a palavra “inspiração” meio romântica. Meu trabalho é fruto da observação, da vontade de traduzir sentimentos indizíveis, de colaborar para um entendimento sobre nosso papel no mundo. Isso vem de dentro, não depende tanto de insights. Claro que há aqueles dias em que estamos mais propensos a escrever e outros em que estamos mais propensos a dormir até mais tarde, mas o que me faz ir para o computador, além da responsabilidade (preciso cumprir prazos, um motivo bem “inspirador” para trabalhar), é o desejo de organizar meus pensamentos.

L.S. Com essa invasão tecnológica em que as pessoas se privam de situações do cotidiano (como uma conversa olho no olho), prendendo-se a redes sociais, você acha que pode haver uma escassez do cronista, já que ele tem a função de escrever sobre essas pequenas situações corriqueiras? 

M.M: Cronista dá em árvore no Brasil. Você sacode um galho e caem dez (excelentes!) na sua mão. Não acredito no fim desse gênero literário. A tecnologia não tem o poder de acabar com a observação do cotidiano, matéria prima da crônica.

L.S. Até o século XX, as mulheres eram condicionadas a exercerem um papel de dona de casa, a não se divorciar, enfim, era catalogado o “feliz pra sempre”. Você acredita que, nas relações de hoje, homens e mulheres são mais modernos ou a hipocrisia ainda se sobressai?

M.M: Mudou muita coisa. Estamos vivendo numa sociedade mais igualitária. Vemos hoje o renascimento do movimento feminista: as mulheres ganharam um novo gás para lutar contra a cultura do estupro, lutar a favor da legalização do aborto, lutar por mais representatividade na política e pelo fim da ideia de que existe um “segundo” sexo. Essa hierarquia não faz mais sentido. Homens e mulheres ocupam o mesmo patamar e devem, juntos, deixar de promover verdades absolutas sobre as relações e se adaptar às circunstâncias. Cada casal, hoje, cria suas próprias regras para fazer a relação funcionar. Acho que a hipocrisia diminuiu, mas as dificuldades continuarão a existir. Relacionar-se é uma pedreira, mas a gente continua tentando.

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Foto: Leticia Remião

L.S. Há diferença entre um livro escrito por homem ou mulher?

M.M: Há diferença entre todos os livros. Os do Cristóvão Tezza são diferentes dos de Clarice Lispector que são diferentes dos de Adélia Prado que são diferentes dos de Luis Fernando Verissimo que são diferentes dos de Daniel Galera que são diferentes dos de Fernanda Young que são diferentes dos de Leticia Wierzchovski que são diferentes dos de Fabricio Carpinejar que são diferentes dos de Caio Fernando Abreu que são diferentes dos meus ou de qualquer outro autor ou autora. Não é uma questão de gênero. É uma questão de forma e estilo.

L.S. Para se ter uma vida sem estresse e saudável é preciso de quê?

M.M: Uma vida sem nenhum estresse é impossível, mas para um nível mínimo de estresse é preciso deixar de dramatizar, deixar de se sentir perseguido pelos outros, assumir suas responsabilidades, valorizar as horas livres e entender que estamos aqui de passagem – nada é tão importante que não possa ser relativizado. Sei que é difícil entender isso quando se tem pouca idade, mas à medida que o tempo passa, a gente aprende que se não for para se divertir e aprender com os próprios erros, a vida fica pesada demais.

L.S. Alguns dos seus livros foram adaptados para o teatro, minisséries e também no cinema. O que você acha desse trabalho em conjunto entre artes literárias, filmográficas, musicais e teatrais? Para finalizar, você está trabalhando em um novo projeto relacionado a esse tipo de interação? 

M.M: Eu gosto de ser adaptada, pois me permite uma nova leitura do meu trabalho, ver como ele é interpretado a fim de alcançar outras mídias. Até agora, não aconteceu nenhuma adaptação que tivesse me envergonhado, ao contrário, me senti muito grata pela oportunidade de ampliar a divulgação dos meus textos, mesmo eles tendo que ser reinventados para se adequar a um novo tipo de comunicação. Fiz amizades no teatro, vivi palpitações novas, só tenho a agradecer. É possível que o livro “Fora de Mim” vá para o cinema, um pré-roteiro já existe, mas por enquanto não há nada sacramentado.

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