Por uma vida menos burocrática

Admiro aqueles que embarcam para o desconhecido. Aqueles que pedem a conta do emprego fixo, tranca o curso na faculdade, sai pelo mundo afora para realizar os desejos e vontades — mesmo que isso seja tenebroso aos olhos da maioria. Mas no fundo, são desejos de traquinagem, aqueles desejos que vamos alimentando e alimentando, até que chega a um determinado momento e dizemos: é agora.

É agora que vou embora. É agora que vou fazer da minha vida uma vida melhor. É agora que vou embarcar para algum lugar sem rumo. É agora que vou fazer uma viagem sem prévia de retorno. É agora.

Não parece eu dizendo isso, não é mesmo? Mas sou eu, sim. Aquele eu que fica bolando ideias para uma fuga, aquelas ideias que passam pela nossa cabeça: “você vai precisar de pouca grana, algumas roupas, um sapato e uma mala; ah, e livros”. E pegar a mochila e ir para qualquer lugar. Os psicanalistas diriam que esta minha atitude é de uma pessoa irresponsável que apenas quer fugir da sua patologia ou fugir de algum obstáculo por medo de enfrentar.

Chega de análise. Chega de pensar no porquê. Chega de pensar no que vão pensar os outros. Chega de ficar tentando justificar tudo. Chega de Freud e Lacam e o estudo da inconsciência. Chega de construir narrativa ilusória e, enfim, embarcar de fato para algum lugar.

Foi o que fez Cheryl Strayed ao relatar em seu livro. Era uma mulher que tinha comportamentos inconsequentes, um casamento destruído, era viciada em heroína e assombrada pelas lembranças de sua saudosa mãe. Nesse conflito com ela mesma, Cheryl embarca para uma jornada em busca do recomeço. Sem experiência alguma e numa decisão impulsiva, embarca numa caminhada de milhares de quilômetros na trilha do Pacific Crest Trail.

 Livre, indaga os medos, os prazeres, os desconfortos ao enfrentar àquilo que está fora do nosso quintal. Um livro intenso e corajoso, mas que acima de tudo, nos faz pensar sobre a vida que levamos. Nos faz pensar na vida que de fato queremos ter. O livro nos leva para um encontro com nosso eu, aquele eus que pensa fugir algumas vezes para encontrar alguma paz de espírito.

Livre nos dá a sensação de liberdade. Liberdade essa para não precisar pagar conta, não precisar ir ao supermercado, não precisar pegar trânsito. Uma vida menos burocrática é simples, sim, mas exige um esforço que nem todos estão dispostos a ter.

 “Vamos embora? Pega aquela mala ali e coloca só o necessário. Vamos dar uma volta por aí e se conectar com as outras possibilidades de existir. Mas tem que ser agora. Vamos conhecer a natureza, respirar ar puro, o que acha?” — pensamos em silêncio.

­— Em que mundo você está? Acorda, temos que fazer compras para o almoço.

Sempre tem um ingrato que nos acorda na melhor parte. Aquela parte em que não há burocracia alguma.

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