Preconceito linguístico

Eu acho a maior graça. Às vezes acontece no corredor da faculdade de alguém parar para falar comigo sobre um texto que escrevi ou para perguntar como se escreve crônica, já que indagam que entendo do assunto. Fico rindo e logo penso com meus botões: entender é o que mesmo, hein?

Em tempos de crise, de instabilidade financeira, de aquecimento global, pessoas se matando e destruindo vidas com crimes bárbaros, quem é que tem a petulância de indagar que sabe de alguma coisa?

Para exemplificar mais esse assunto, uma superamiga pediu para eu ler à crônica que ela escreveu para o jornal impresso da faculdade (confesso que não me sinto a vontade para qualificar a escrita), mas ao ler o texto dela fiquei pensando como seria perfeita a vida como explicava. A crônica falava sobre a bomba de Hiroshima. Eu simplesmente adorei porque ela é pra lá de boa.

Aconteceu que, ela pediu para um senhor “sabidão” que é cronista ler seu texto, e no mesmo dia, ele respondeu o e-mail como crítico. Crítico mesmo. Daqueles que ao ler o texto fazem análise sintática e o uso morfológico das palavras e fonética. Ou seja, um desocupado que poderia gastar seu tempo abraçando as palavras ao invés de usar o que sabe para diminuir as pessoas com críticas cáusticas e quilométricas.

Ela me mostrou o e-mail que ele enviou e fiquei horrorizado com tamanha prepotência e empáfia, aliás, notei que estava equivocado em várias aspectos. Mas logo me lembrei de como isso é comum. Vai me dizer que você nunca chamou de ignorante uma pessoa que escreve “vende casa-se” ou “vende frango-se”? Até mesmo eu já ri desses casos, mas não tenho orgulho nenhum em dizer. Hoje consigo analisar essas frases até como forma poética, por que não?

O preconceito linguístico vem de uma estrutura piramidal, linear e hierarquizada em que há sempre um ignorante que não sabe escrever e um sabidão que fica rindo dos menos favorecidos, quando não riem, punem.

Uma pessoa pode não saber escrever corretamente com coesão, pontuação, acentuação, concordância verbal, nominal e riqueza de estilística, mas ela pode saber os nomes das plantas que você nunca se interessou, ela pode saber como curar uma tuberculose ou uma gripe sem recomendação médica, e com que topete alguém vem dizer como se deve escrever?

Generalizando, mas repare: a maioria das pessoas com formação intelectualmente sofisticada são as que vivem diminuindo aqueles que tiveram menos oportunidade que nós. Há pessoas que não sabem gramática, mas sabem história, sabem geografia e nem por isso devem ser menosprezadas. A verdade é que não fomos educados para valorizar o saber do outro, mas, sim, para menosprezar e subestimar. Essa é a nossa lástima realidade.

Se isso é crônica? No final das contas eu não sei. O que é totalmente compreensível, já que intuo que estamos fazendo a pergunta errada. O correto seria: esse simples texto conseguiu provocar em você o inescrupuloso lixo de gente que estamos nos transformando?

Se sim. Que bom. Obrigado.

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